OS MANDAMENTOS: 8º ao 10º
ARTIGO
8
O
OITAVO MANDAMENTO
“Não levantarás falso testemunho
contra o teu próximo” (Ex 20, 16).
“Ouvistes também que foi dito aos
antigos: “Não julgarás falso, mas cumprirás os teus juramentos feitos ao Senhor” (Mt 5,
33).
2464. O
oitavo mandamento proíbe falsear a verdade nas relações com os outros. Essa
prescrição moral decorre da vocação do povo santo para ser testemunha do seu
Deus, que é e que quer a verdade. As ofensas à verdade exprimem, por palavras
ou por atos, a recusa em empenhar-se na retidão moral: são infidelidades graves
para com Deus e, nesse sentido, minam os alicerces da Aliança.
I.
Viver na verdade
2465. O
Antigo Testamento declara: Deus é a fonte de toda a verdade. A sua
Palavra é verdade. A sua lei é verdade. “A sua fidelidade permanece de geração
em geração” (Sl 119, 90). Uma vez que Deus é o “Verdadeiro” (Rm 3,
4), os membros do seu povo são chamados a viver na verdade.
2466. Em
Jesus Cristo, a verdade de Deus manifestou-se na sua totalidade. Cheio de graça
e de verdade, Ele é a “luz do mundo” (Jo 8, 12), Ele é a
verdade. Quem nele crê não fica nas trevas. O discípulo de Jesus “permanece
na sua palavra” para conhecer a verdade que liberta e que santifica. Seguir
Jesus é viver do Espírito de verdade que o Pai envia em seu nome e que conduz “à
verdade total” (Jo 14, 17; 16, 13). Aos seus discípulos, Jesus
ensina o amor incondicional à verdade: “que a vossa linguagem seja: “sim, sim;
não, não” (Mt 5, 37).
2467. O
homem tende naturalmente para a verdade. É obrigado a honrá-la e a
testemunhá-la: “Em virtude da sua dignidade, todos os homens, porque pessoas,
[…] são impelidos pela sua própria natureza e obrigados por exigência moral a
procurar a verdade, em primeiro lugar aquela que diz respeito à religião. São
obrigados também a aderir à verdade desde que a conheçam e a regular toda a sua
vida segundo as exigências da verdade”.
2468. A
verdade como retidão do agir e da palavra humana tem o nome de veracidade,
sinceridade ou franqueza. A verdade ou a veracidade é a virtude que consiste em
se mostrar verdadeiro no agir e no falar, evitando a duplicidade, a simulação e
a hipocrisia.
2469. “Os
homens não seriam capazes de viver juntos, se não tivessem confiança uns
nos outros, isto é, se não se dissessem a verdade”. A virtude da veracidade dá
justamente a outrem o que lhe é devido. A veracidade observa um justo
meio-termo entre o que deve ser dito e o segredo que deve ser guardado: implica
honestidade e discrição. Por justiça, “um homem deve honestamente ao outro a
manifestação da verdade”.
2470. O
discípulo de Cristo aceita “viver na verdade”, isto é, na simplicidade duma
vida conforme ao exemplo do Senhor e permanecendo na Sua verdade. “Se dizemos
que estamos em comunhão com Ele e andamos nas trevas, mentimos, não praticamos
a verdade” (1 Jo 1, 6).
II.
“Dar testemunho a verdade”
2471. Diante
de Pilatos, Cristo proclama que “veio ao mundo para dar testemunho da verdade”.
O cristão não deve “envergonhar-se de dar testemunho do Senhor” (2 Tm 1,
8). Em situações que exigem a confissão da fé, o cristão deve professá-la sem
equívoco, conforme o exemplo de São Paulo diante dos seus juízes. É preciso
guardar uma consciência irrepreensível diante de Deus e dos homens” (At 24,
16).
2472. O
dever dos cristãos, de tomar parte na vida da Igreja, leva-os a agir como testemunhas
do Evangelho e das obrigações que dele dimanam. Este testemunho é
transmissão da fé por palavras e obras. O testemunho é um ato de justiça que
estabelece ou que dá a conhecer a verdade: “Todos os fiéis cristãos, onde quer
que vivam, têm obrigação de manifestar, pelo exemplo da vida e pelo testemunho
da palavra, o homem novo de que se revestiram pelo Baptismo e a virtude do
Espírito Santo, com que foram robustecidos na Confirmação”.
2473. O martírio é
o supremo testemunho dado em favor da verdade da fé; designa um testemunho que
vai até à morte. O mártir dá testemunho de Cristo, morto e ressuscitado, ao
qual está unido pela caridade. Dá testemunho da verdade da fé e da doutrina
cristã. Suporta a morte com um ato de fortaleza. “Deixai-me ser pasto das
feras, pelas quais poderei chegar à posse de Deus”.
2474. A
Igreja recolheu com o maior cuidado as memórias daqueles que foram até ao fim
na confissão da sua fé. São as Atas dos Mártires, as quais constituem os
arquivos da verdade escritos com letras de sangue:
“De nada me
serviriam os atrativos do mundo ou os reinos deste século. Prefiro morrer em
Cristo Jesus a reinar sobre todos os confins da terra. Procuro Aquele que
morreu por nós; quero aquele que ressuscitou por nossa causa. Estou prestes a
nascer…”.
“Eu Te bendigo por
me teres julgado digno deste dia e desta hora, digno de ser contado no número
dos teus mártires (…). Tu cumpriste a tua promessa, Deus da fidelidade e da
verdade. Por esta graça e por tudo, eu Te louvo e Te bendigo; eu Te glorifico
pelo eterno e celeste Sumo-Sacerdote Jesus Cristo, Teu Filho muito-amado. Por
Ele, que está contigo e com o Espírito, glória a Ti, agora e pelos séculos sem
fim. Amem”.
III.
As ofensas à verdade
2475. Os
discípulos de Cristo “revestiram-se do homem novo, criado segundo Deus na
justiça e na santidade verdadeiras” (Ef 4, 24). “Libertos da
mentira” (Ef 4, 25), devem rejeitar “toda a malícia,
falsidade, hipocrisia, invejas e toda a espécie de maledicência” (1 Pd
2, I).
2476. Falso
testemunho e perjúrio. Uma afirmação contrária à
verdade feita publicamente, reveste-se de gravidade particular: perante um
tribunal, é um falso testemunho; quando mantida sob juramento, é um perjúrio. Essas
formas de agir contribuem para condenar um inocente, para inocentar um culpado
ou para aumentar a sanção em que incorre o acusado. Elas comprometem gravemente
o exercício da justiça e a equidade da sentença pronunciada pelos juízes.
2477. O respeito
à reputação das pessoas proíbe toda e qualquer atitude ou palavra
susceptíveis de lhes causar um dano injusto. Torna-se culpado:
– de juízo
temerário, aquele que, mesmo tacitamente, admite como verdadeiro, sem prova
suficiente, um defeito moral no próximo;
– de maledicência,
aquele que, sem motivo objetivamente válido, revela os defeitos e as faltas de
outros a pessoas que os ignoram;
– de calúnia,
aquele que, por afirmações contrárias à verdade, prejudica a reputação dos
outros e dá ocasião a falsos juízos a seu respeito.
2478. Para
evitar o juízo temerário, cada um procurará interpretar em sentido favorável,
tanto quanto possível, os pensamentos, as palavras e os atos do seu próximo:
“Todo o bom cristão
deve estar mais pronto a interpretar favoravelmente a opinião ou afirmação
obscura do próximo do que a condená-la. Se não é possível desculpá-la, deve-se
perguntar-lhe como as entende; e se ele entende mal, que seja corrigido com
amor; e, se isso não bastar, que se procurem todos os meios apropriados para
que, as compreendendo corretamente, se salve”.
2479. A
maledicência e a calúnia destroem a reputação e a honra do próximo. Ora,
a honra é o testemunho social prestado à dignidade humana e todos gozam do
direito natural à honra do seu nome, à boa reputação e ao respeito. Por isso, a
maledicência e a calúnia lesam as virtudes da justiça e da caridade.
2480. Deve
condenar-se toda a palavra ou atitude que, por bajulação, adulação ou
complacência, estimula e confirma outrem na malícia dos seus atos e na
perversidade da sua conduta. A adulação é uma falta grave, se se tornar
cúmplice de vícios ou de pecados graves. Nem o desejo de prestar um serviço nem
a amizade justificam a duplicidade de linguagem. A adulação é um pecado venial
quando apenas se deseja ser agradável, evitar um mal, valer a uma necessidade
ou obter vantagens legítimas.
2481. A
arrogância ou fanfarronice constitui um
pecado contra a verdade. O mesmo se diga da ironia que visa
depreciar alguém, caricaturando, de modo malévolo, um ou outro aspecto do seu
comportamento.
2482. “A
mentira consiste em dizer o que é falso
com a intenção de enganar”. O Senhor denuncia na mentira uma obra diabólica: “Vós
tendes por pai o diabo, [… ] nele não há verdade; quando fala mentira, fala do
que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8,
44).
2483. A
mentira é a ofensa mais direta à verdade. Mentir é falar ou agir contrariamente
à verdade, para induzir em erro. Lesando a relação do homem com a verdade e com
o próximo, a mentira ofende a relação fundamental do homem e da sua palavra com
o Senhor.
2484. A
gravidade da mentira mede-se pela natureza da verdade
que ela deforma, atendendo às circunstâncias, às intenções de quem a comete e
aos danos causados àqueles que são suas vítimas. Embora a mentira, em si, não
constitua mais que um pecado venial, torna-se mortal quando lesa gravemente as
virtudes da justiça e da caridade.
2485. A
mentira é, por sua natureza, condenável. É uma profanação da palavra, a qual
tem por fim comunicar aos outros a verdade conhecida. O propósito deliberado de
induzir o próximo em erro, por meio de afirmações contrárias à verdade constitui
uma falta contra justiça e contra a caridade. A culpabilidade é maior quando a
intenção de enganar pode ter consequências funestas para aqueles que são
desviados da verdade.
2486. A
mentira (porque é uma violação da virtude da veracidade) é uma autêntica
violência feita a outrem. Este é atingido na sua capacidade de conhecer, a qual
é condição de todo o juízo e de toda a decisão. A mentira contém em gérmen a
divisão dos espíritos e todos os males que a mesma suscita. É funesta para toda
a sociedade: destrói pela base a confiança entre os homens e retalha o tecido
das relações sociais.
2487. Qualquer
falta cometida contra a justiça e contra a verdade implica o dever
da reparação, mesmo que o seu autor tenha sido perdoado. Quando for
impossível reparar publicamente um mal, deve-se fazê-lo em segredo; se aquele
que foi lesado não pode ser indenizado diretamente, deve-se lhe dar uma
satisfação moralmente, em nome da caridade. Este dever de reparação diz
respeito também às faltas cometidas contra a reputação alheia. A reparação,
moral e às vezes material, deve ser avaliada segundo a medida do prejuízo
causado e obriga em consciência.
IV.
O respeito à verdade
2488. O direito
à comunicação da verdade não é absoluto. Cada um deve conformar a sua
vida com o preceito evangélico do amor fraterno, mas este requer, em situações
concretas, que avaliemos se convém ou não revelar a verdade a quem a pede.
2489. É
a caridade e o respeito pela verdade que devem ditar a resposta a
qualquer pedido de informação ou de comunicação. O bem e a segurança
de outrem, o respeito pela vida privada e pelo bem comum, são razões
suficientes para calar o que não deve ser conhecido ou para usar uma linguagem
discreta. Muitas vezes, o dever de evitar o escândalo impõe uma estrita
discrição. Ninguém é obrigado a revelar a verdade a quem não tem o direito de a
conhecer.
2490. O sigilo
do sacramento da Reconciliação é sagrado e não pode ser revelado sob
pretexto algum. “O sigilo sacramental é inviolável; pelo que o confessor não
pode denunciar o penitente, nem por palavras nem por qualquer outro modo, nem
por causa alguma”.
2491. Os
segredos profissionais – conhecidos, por exemplo, por políticos,
militares, médicos, juristas – ou as confidências feitas sob sigilo,
devem ser guardados, salvo em casos excepcionais em que a retenção do segredo
poderia causar a quem o confiou, a quem o recebeu, ou a terceiros, danos muito
graves e somente evitáveis pela revelação da verdade. Mesmo que não tenham sido
confiadas sob sigilo, as informações particulares prejudiciais a outrem não
devem ser divulgadas sem uma razão grave e proporcionada.
2492. Cada
qual deve observar uma justa reserva a propósito da vida privada das pessoas.
Os responsáveis pela comunicação devem guardar uma justa proporção entre as
exigências do bem comum e o respeito pelos direitos particulares. A ingerência
dos órgãos de informação na vida privada das pessoas comprometidas numa
atividade política ou pública é condenável na medida em que atenta contra a sua
intimidade e a sua liberdade.
V.
O uso dos meios de comunicação social
2493. Na
sociedade moderna, os meios de comunicação social desempenham um papel de
grande relevo na informação, na promoção cultural e na formação. Este papel é
cada vez maior, em virtude dos progressos técnicos, do alcance e diversidade
das notícias transmitidas e da influência exercida sobre a opinião pública.
2494. A
informação mediática está ao serviço do bem comum. A sociedade tem direito a
uma informação fundada na verdade, na liberdade, na justiça e na solidariedade.
“O uso reto deste
direito requer que a comunicação seja, quanto ao objeto, sempre verídica, e
quanto ao respeito pelas exigências da justiça e da caridade, completa; quanto
ao modo, que seja honesta e conveniente, quer dizer, que na obtenção e difusão
das notícias, observe absolutamente as leis morais, os direitos e a dignidade
do homem”.
2495. “Também
neste domínio é necessário que todos os membros da sociedade cumpram os seus
deveres de justiça e de verdade. Devem utilizar os meios de comunicação social
no sentido de concorrer para a formação e difusão da reta opinião pública”. A
solidariedade é consequência duma comunicação verdadeira e justa e da livre
circulação das ideias que favorecem o conhecimento e o respeito pelos outros.
2496. Os
meios de comunicação social (especialmente a mídia) podem gerar certa
passividade entre os usuários, os tornando consumidores pouco criteriosos a
respeito das mensagens e dos espetáculos. Os usuários hão de se impor moderação
e disciplina quanto à mídia. Hão de formar em si uma consciência esclarecida e
correta, para resistir mais facilmente às influências menos honestas.
2497. Pela
própria natureza da sua profissão na imprensa, os seus responsáveis têm a
obrigação, na difusão da informação, de servir a verdade sem ofender a
caridade. Hão de se esforçar por respeitar, com igual cuidado, a natureza dos
fatos e os limites do juízo crítico em relação às pessoas. Devem evitar ceder à
difamação.
2498. “Cabem
às autoridades civis deveres particulares em razão do bem
comum. Os poderes públicos devem defender e proteger a verdadeira e justa
liberdade de informação”. Promulgando leis e velando pela sua aplicação, os
poderes públicos “cuidarão para que o mau uso dos meios de comunicação não
venha a causar graves prejuízos aos costumes públicos e aos progressos da
sociedade”. Estabelecerão sanções contra a violação dos direitos de cada pessoa
à reputação e ao segredo da vida privada. Darão no momento oportuno e
honestamente, as informações que dizem respeito ao bem comum e respondem às
inquietações fundadas da população. Nada pode justificar o recurso às falsas
informações para se manipular a opinião pública através dos meios de
comunicação. Com tais intervenções não se ferirá a liberdade dos indivíduos e
dos grupos.
2499. A
moral denuncia o flagelo dos estados totalitários, que falsificam
sistematicamente a verdade, exercem através dos meios de comunicação a
dominação política da opinião pública, “manipulam” os acusados e as testemunhas
dos processos públicos e acreditam assegurar sua tirania, sufocando ou
reprimindo tudo o que consideram como “delitos de opinião”.
VI.
Verdade, beleza e arte sacra
2500. A
prática do bem é acompanhada por um prazer espiritual gratuito e pela beleza
moral. Do mesmo modo, a verdade comporta a alegria e o esplendor da beleza
espiritual. A verdade é bela por si mesma. A verdade da palavra, expressão
racional do conhecimento da realidade criada e incriada, necessária ao homem
dotado de inteligência; mas a verdade pode encontrar também outras formas de
expressão humana, complementares, sobretudo quando se trata de evocar o que ela
comporta de indizível: as profundezas do coração humano, as elevações da alma, o
mistério de Deus. Antes mesmo de se revelar ao homem em palavras de verdade,
Deus a ele se revela pela linguagem universal da criação, obra da sua Palavra e
da sua Sabedoria: a ordem e a harmonia do cosmos – que podem ser descobertas
tanto pela criança como pelo homem de ciência, “a grandeza e a beleza das
criaturas levam, por analogia, à contemplação do seu Autor” (Sb 13,
5), “porque foi a própria fonte da beleza que as criou” (Sb 13,
3).
“A Sabedoria é um
sopro do poder de Deus, efusão pura da glória do Omnipotente; por isso, nenhum
elemento impuro a pode atingir. Ela é o esplendor da luz eterna, límpido
espelho da atividade de Deus, imagem da sua bondade” (Sb 7, 25-26).
“A Sabedoria é, de facto, mais formosa do que o sol e supera todas as constelações.
Comparada com a luz, revela-se mais excelente, porque à luz sucede a noite, mas
a maldade nada pode contra a Sabedoria (Sb 7, 29-30). Amei-a
[…] e enamorei-me dos seus encantos” (Sb 8, 2)
2501.
“Criado à imagem de Deus”, o homem
exprime também a verdade da sua relação com Deus Criador pela beleza das suas
obras artísticas. A arte é, com efeito, uma forma de expressão
especificamente humana. Para além da busca da satisfação das necessidades
vitais, comum a todas as criaturas vivas, a arte é uma superabundância gratuita
da riqueza interior do ser humano. Fruto do talento dado pelo Criador e do
esforço do próprio homem, a arte é uma forma de sabedoria prática, unindo
conhecimento e habilidade para dar forma à verdade duma realidade, em linguagem
acessível à vista ou ao ouvido. A arte comporta assim uma certa semelhança com
a atividade de Deus no mundo criado, na medida em que se inspira na verdade e
no amor dos seres. Como qualquer outra atividade humana, a arte não tem em si
mesma o seu fim absoluto; mas é ordenada e enobrecida pelo fim último do homem.
2502. A arte
sacra é verdadeira e bela quando corresponde, pela forma, à sua
vocação própria: evocar e glorificar, na fé e na adoração, o mistério
transcendente de Deus, sobre eminente beleza invisível da verdade e do amor,
manifestada em Cristo, “esplendor da sua glória e imagem da sua substância” (Hb 1,
3), no Qual “habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2,
9); beleza espiritual refletida na santíssima Virgem Mãe de Deus, nos anjos e
nos santos. A verdadeira arte sacra leva o homem à adoração, à oração e ao amor
de Deus, Criador e Salvador, Santo e Santificador.
2503. Por
isso, os bispos devem, por si próprios ou por delegados, velar pela promoção da
arte sacra, antiga e nova, sob todas as suas formas e, com o mesmo religioso
cuidado, afastar da liturgia e dos lugares de culto tudo o que não for conforme
com a verdade da fé e a autêntica beleza da arte sacra.
Resumindo:
2504. “Não
levantarás falso testemunho contra o teu próximo” (Ex 20, 16). Os
discípulos de Cristo revestiram-se “do homem novo, que foi criado em
conformidade com Deus, na justiça e na santidade, próprias da verdade” (Ef 4,
24).
2505. A
verdade ou veracidade é a virtude que consiste em mostrar-se verdadeiro
nos atos e em dizer a verdade nas palavras, evitando a duplicidade, a simulação
e a hipocrisia.
2506. O
cristão não deve “envergonhar-se de dar testemunho do Senhor” (2 Tm
1, 8) em atos e palavras. O martírio é o supremo testemunho dado em favor da
verdade da fé.
2507. O
respeito pelo bom nome e pela honra das pessoas proíbe toda e qualquer
atitude ou palavra de maledicência ou calúnia.
2508. A
mentira consiste em dizer o que é falso, com a intenção de enganar o
próximo.
2509. Uma
falta cometida contra a verdade exige reparação.
2510.
Em situações concretas, a regra de
ouro ajuda a discernir se convém ou não
revelar a verdade a quem a pede.
2511.
“O sigilo sacramental é inviolável”. Os
segredos profissionais devem ser guardados. As confidências
prejudiciais a outrem não devem ser divulgadas.
2512.
A sociedade tem direito a uma
informação fundada na verdade, na liberdade
e na justiça. É preciso impor-se moderação e disciplina no uso dos meios de
comunicação social.
2513.
As belas-artes, mas sobretudo a arte
sacra, “estão relacionadas, por sua
natureza, com a infinita beleza de Deus, que deve ser expressa de algum modo
nas obras humanas. E tanto mais se consagram a Deus e contribuem para o seu louvor
e para a sua glória, quanto mais se afastarem de todo o propósito que não seja
o de contribuir o mais eficazmente possível, através das suas obras, para
dirigir o espírito dos homens, piamente, para Deus”.
O
NONO MANDAMENTO
“Não cobiçarás a
casa do teu próximo, não desejarás a mulher do próximo, nem o seu servo, nem a
sua serva, nem o seu boi, ou o seu jumento, nem nada que lhe pertença” (Ex 20,
17).
“Todo aquele que
olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração”
(Mt 5, 28).
2514.
São João distingue três espécies de
cupidez ou concupiscência: a concupiscência da carne, a concupiscência dos
olhos e a soberba da vida. Segundo a tradição catequética católica, o nono
mandamento proíbe a concupiscência carnal; e o décimo, a cobiça dos bens
alheios.
2515.
Em sentido etimológico, “concupiscência”
pode designar todas as formas veementes de desejo humano. A teologia cristã
deu-lhe o sentido particular de impulso do apetite sensível, contrário aos
ditames da razão humana. O apóstolo São Paulo identifica-a com a revolta que a “carne”
instiga contra o “espírito”. Procede da desobediência do primeiro pecado.
Desregra as faculdades morais do homem e, sem ser nenhuma falta em si mesma,
inclina o homem para cometer pecado.
2516.
No homem, porque é um ser integrado
de espírito e corpo, já existe uma certa tensão. Trava-se nele uma
certa luta de tendências entre o “espírito” e a “carne”. Mas esta luta, de
facto, faz parte da herança do pecado, é uma consequência dele e, ao mesmo
tempo, uma sua confirmação. Faz parte da experiência quotidiana do combate
espiritual:
“Para o Apóstolo,
não se trata de desprezar e condenar o corpo que, com a alma espiritual,
constitui a natureza do homem e a sua personalidade de sujeito; pelo contrário,
ele fala das obras, ou antes, das disposições estáveis,
virtudes e vícios, moralmente boas ou más, que são o fruto
da submissão (no primeiro caso) ou, pelo contrário, da resistência (no
segundo caso) à ação salvadora do Espírito Santo. É
por isso que o Apóstolo escreve: “Se vivemos pelo Espírito, caminhemos também
segundo o espírito” (Gl 5, 25)”.
I.
A purificação do coração
2517.
O coração é a sede da personalidade
moral: “Do coração procedem as más intenções, os assassínios, os adultérios, as
prostituições” (Mt 15, 19). A luta contra a concupiscência carnal
passa pela purificação do coração e pela prática da temperança:
“Mantém-te na
simplicidade, na inocência, e serás como as criancinhas que ignoram o mal,
destruidor da vida dos homens”.
2518.
A sexta bem-aventurança proclama: “Bem-aventurados
os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5, 8). Os “puros de
coração” são os que puseram a inteligência e a vontade de acordo com as
exigências da santidade de Deus, principalmente em três domínios: a caridade; a
castidade ou retidão sexual; o amor da verdade e a ortodoxia da fé, Existe um
nexo entre a pureza do coração, do corpo e da fé:
Os fiéis devem crer
nos artigos do Credo, “para que, crendo, obedeçam a Deus; obedecendo a Deus,
vivam como deve ser; vivendo como deve ser, purifiquem o seu coração; e
purificando o seu coração, compreendam aquilo em que creem”.
2519.
Aos “puros de coração” é prometido
que verão a Deus face a face e serão semelhantes a Ele. A pureza do coração é
condição prévia para a visão. Já desde agora, permite-nos ver segundo Deus,
aceitar o outro como um “próximo” e compreender o corpo humano, o nosso e o do
próximo, como um templo do Espírito Santo, uma manifestação da beleza divina.
II.
A luta pela pureza
2520. O
Batismo confere a quem o recebe a graça da purificação de todos os pecados. Mas
o batizado deve continuar a lutar contra a concupiscência da carne e os desejos
desordenados. Com a graça de Deus, alcançará a pureza de coração:
– pela virtude
e pelo dom da castidade, pois a castidade permite
amar com um coração reto e sem partilha;
– pela pureza
de intenção, que consiste em ter em vista o verdadeiro fim do homem:
com um olhar simples, o batizado procura descobrir e cumprir em tudo a vontade
de Deus;
– pela pureza
do olhar, exterior e interior; pela disciplina dos sentidos e da
imaginação; pela rejeição da complacência em pensamentos impuros que o levariam
a desviar-se do caminho dos mandamentos divinos: “a vista excita a paixão dos
insensatos” (Sb 15, 5).
– pela oração:
“Eu julgava que a
continência dependia das minhas próprias forças, forças que em mim não
conhecia. Eu era insensato que não sabia […] que ninguém pode ser continente,
se vós não concedeis. Sem dúvida, o terias concedido, se com gemidos interiores
vos ferisse os teus ouvidos e, com firme fé, pusesse em vós minha preocupação”.
2521.
A pureza exige o pudor. O
pudor é parte integrante da temperança. O pudor preserva a intimidade da
pessoa. Designa a recusa de mostrar o que deve ficar oculto. Está ordenado à
castidade, exprimindo sua delicadeza. Orienta os olhares e as atitudes em
conformidade com a dignidade das pessoas e com a união que existe entre elas.
2522. O
pudor protege o mistério da pessoa e do seu amor. Convida à paciência e à
moderação na relação amorosa e exige que se cumpram as condições do dom e do
compromisso definitivo do homem e da mulher entre si. O pudor é modéstia.
Inspira a escolha do vestuário, mantém o silêncio ou o recato onde se adivinha
o perigo duma curiosidade malsã. O pudor é discrição.
2523. Existe
um pudor dos sentimentos, tal como existe um pudor corporal. Ele protesta, por
exemplo, contra as explorações exibicionistas do corpo humano em certa
publicidade, ou contra a solicitação de certos meios de comunicação em ir longe
demais na revelação de confidências íntimas. O pudor inspira um modo de viver
que permite resistir às solicitações da moda e à pressão das ideologias
dominantes.
2524. As
formas de que o pudor se reveste variam de cultura para cultura. No entanto,
ele continua a ser, em toda a parte, o pressentimento duma dignidade espiritual
própria do homem. Nasce com o despertar da consciência pessoal. Ensinar o pudor
às crianças e adolescentes é despertá-los para o respeito pela pessoa humana.
2525. A
pureza cristã exige uma purificação do ambiente social. Exige
dos meios de comunicação social uma informação preocupada com o respeito e o
recato. A pureza de coração liberta do erotismo difuso e afasta dos espetáculos
que favorecem a curiosidade mórbida e a ilusão.
2526. A
chamada permissividade dos costumes assenta numa concepção
errónea da liberdade humana; para se edificar, esta precisa de se deixar educar
previamente pela lei moral. Deve pedir-se aos responsáveis pela educação que
ministrem à juventude um ensino respeitador da verdade, das qualidades do
coração e da dignidade moral e espiritual do homem.
2527. “A
boa-nova de Cristo renova constantemente a vida e a cultura do homem decaído;
combate e repele os erros e os males provenientes da sedução sempre ameaçadora
do pecado. Purifica e eleva sem cessar a moralidade dos povos. Com as riquezas
do alto, fecunda, consolida, completa e restaura em Cristo, como que a partir
de dentro, as qualidades espirituais e os dotes de todos os povos e eras”.
Resumindo:
2528. “Todo
aquele que olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério
com ela no seu coração” (Mt 5, 28).
2529. O
nono mandamento acautela-nos contra a cupidez ou concupiscência
carnal.
2530. A
luta contra a concupiscência carnal passa pela purificação do coração
e pela prática da temperança.
2531.
A pureza de coração permitir-nos-á
ver a Deus: desde já, permite-nos ver tudo
segundo Deus.
2532. A
purificação do coração exige a oração, a prática da castidade, a pureza
de intenção e do olhar.
2533. A
pureza do coração requer o pudor que é paciência, modéstia e discrição.
O pudor preserva a intimidade da pessoa.
O
DÉCIMO MANDAMENTO
“Não cobiçarás […]
nada que pertença [ao teu próximo]” (Ex 20, 17). “Não
cobiçarás a casa [do teu próximo], nem o seu campo, nem o seu servo nem a sua
serva, o seu boi, ou o seu jumento, nem nada que lhe pertença” (Dt 5,
21).
“Onde estiver
o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6, 21).
2534. O
décimo mandamento desdobra e completa o nono, que tem por objeto a
concupiscência da carne. Proíbe cobiçar o bem de outrem, raiz de onde procede o
roubo, a rapina e a fraude, proibidos pelo sétimo mandamento. A “concupiscência
dos olhos” (1 Jo 2, 16) conduz à dolência e à injustiça,
proibidas pelo quinto mandamento. A cobiça, bem como a fornicação, tem a sua
origem na idolatria, proibida nos três primeiros mandamentos da Lei. O décimo
mandamento incide sobre a intenção do coração e resume, com o nono, todos os
preceitos da Lei.
I.
A desordem das cobiças
2535. O
apetite sensível leva-nos a desejar as coisas agradáveis que não possuímos.
Exemplo disso é desejar comer quando se tem fome ou aquecer-se quando se tem
frio. Estes desejos são bons em si mesmos; muitas vezes, porém, não respeitam
os limites da razão e levam-nos a cobiçar injustamente o que não é nosso e que
pertence, ou é devido, a outrem.
2536. O
décimo mandamento condena a avidez e o desejo duma apropriação
desmesurada dos bens terrenos; e proíbe a cupidez desregrada,
nascida da paixão imoderada das riquezas e do seu poder. Interdita também o
desejo de cometer uma injustiça pela qual se prejudicaria o próximo nos seus
bens temporais:
“Quando a Lei nos
diz: “Não cobiçarás”, diz-nos, por outras palavras, que afastemos os nossos
desejos de tudo o que não nos pertence. Porque a sede da cobiça dos bens
alheios é imensa, infindável e insaciável, conforme está escrito: “O avarento
nunca se fartará de dinheiro” (Ecl 5, 9)”.
2537. Não
é violar este mandamento desejar obter coisas que pertencem ao próximo, desde
que seja por meios legítimos. A catequese tradicional menciona, com realismo, “os
que têm que lutar mais contra as suas cobiças criminosas” e que, portanto,
precisam de ser “exortados com mais insistência a observarem este preceito”:
“São [.. .] os comerciantes
que desejam a falta ou carestia das coisas, que veem com pena não serem eles os
únicos a comprar e a vender, o que lhes permitiria vender mais caro e comprar
mais barato; os que desejam ver o seu semelhante na miséria, para obterem
maiores lucros, quer vendendo quer comprando […]. Os médicos, que desejam que
haja doentes; os advogados, que reclamam causas e processos importantes e
numerosos…”.
2538. O
décimo mandamento exige que seja banida a inveja do coração
humano. Quando o profeta Natan quis estimular o arrependimento do rei David,
contou-lhe a história do pobre que só possuía uma ovelha, tratada como se fosse
uma filha, e do rico que, apesar dos seus numerosos rebanhos, tinha inveja dele
e acabou por lhe roubar a ovelha. A inveja pode levar aos piores crimes. “Foi
pela inveja do demónio que a morte entrou no mundo” (Sb 2, 24).
“Combatemo-nos uns
aos outros e é a inveja que nos arma uns contra os outros […]. Se todos se
encarniçam assim a abalar o corpo de Cristo, onde chegaremos nós? Estamos a
aniquilar o corpo de Cristo. […] Declaramo-nos membros dum mesmo organismo e
devoramo-nos como feras”.
2539. A
inveja é um vício capital. Designa a tristeza que se sente perante o bem alheio
e o desejo imoderado de se apropriar dele, mesmo indevidamente. Se desejar ao
próximo um mal grave, é pecado mortal:
Santo Agostinho via
na inveja “o pecado diabólico por excelência”. “Da inveja nascem o ódio, a
maledicência, a calúnia, a alegria causada pelo mal do próximo e o desgosto
causado pela sua prosperidade”.
2540. A
inveja representa uma das formas da tristeza e, portanto, uma recusa da
caridade; o batizado lutará contra ela, opondo-lhe a benevolência. Muitas
vezes, a inveja nasce do orgulho; o batizado exercitar-se-á a viver na humildade:
“Quereríeis ver
Deus glorificado por vós? Pois bem, alegrai-vos com os progressos do vosso
irmão e, assim, será por vós que Deus é glorificado. Deus será louvado,
dir-se-á, pelo facto de o seu servo ter sabido vencer a inveja, pondo a sua
alegria nos méritos dos outros”.
II.
Os desejos do Espírito
2541.
A economia da lei e da graça desvia o
coração dos homens da cobiça e da inveja; inicia-o no desejo do sumo bem; e
instrui-o nos desejos do Espírito Santo que sacia o coração do homem.
O Deus das promessas
desde sempre pôs o homem de prevenção contra a sedução daquilo que, desde as
origens, aparece como “bom para comer, […] de atraente aspecto e precioso para
esclarecer a inteligência” (Gn 3, 6).
2542. A
Lei, confiada a Israel, nunca foi suficiente para justificar aqueles que lhe
estavam sujeitos; chegou até a tornar-se instrumento de “concupiscência”. A
inadequação entre o querer e o fazer manifesta o conflito entre a Lei de Deus,
que é a “lei da razão”, e uma outra lei “que me retém cativo na lei do pecado,
que se encontra nos meus membros” (Rm 7, 23).
2543. “Agora,
foi sem a Lei que se manifestou a justiça de Deus, testemunhada pela Lei e
pelos Profetas: a justiça que vem para todos os crentes, mediante a fé em Jesus
Cristo” (Rm 3, 21-22). E assim, os fiéis de Cristo “crucificaram
a carne com as suas paixões e desejos” (Gl 5, 24); são conduzidos
pelo Espírito e seguem os desejos do Espírito.
III.
A pobreza de coração
2544. Jesus
impõe aos seus discípulos que O prefiram a tudo e a todos e propõe-lhes que
renunciem a todos os seus bens por causa d’Ele e do Evangelho. Pouco antes da
sua paixão, deu-lhes o exemplo da pobre viúva de Jerusalém que, da sua penúria,
deu tudo o que tinha para viver. O preceito do desapego das riquezas é
obrigatório para entrar no Reino dos céus.
2545. Todos
os fiéis de Cristo devem “ordenar rectamente os próprios afetos, para não serem
impedidos de avançar na perfeição da caridade pelo uso das coisas terrenas e
pelo apego às riquezas, em oposição ao espírito de pobreza evangélica”.
2546. “Bem-aventurados
os pobres em espírito” (Mt 5, 3). As bem-aventuranças revelam
uma ordem de felicidade e de graça, de beleza e de paz. Jesus celebra a alegria
dos pobres, aos quais o Reino pertence desde já:
“O Verbo chama
“pobreza em espírito” à humildade voluntária do espírito humano e à sua
renúncia; e o Apóstolo dá-nos como exemplo a pobreza de Deus, quando diz: “Ele
fez-Se pobre por nós (2 Cor 8, 9)”.
2547. O
Senhor lamenta-Se dos ricos, porque eles encontram a sua consolação na
abundância de bens. “O orgulhoso procura o poder terreno, ao passo que o pobre
em espírito procura o Reino dos céus”. O abandono à providência do Pai do céu
liberta da preocupação pelo amanhã. A confiança em Deus dispõe para a
bem-aventurança dos pobres. Eles verão a Deus.
IV.
“Quero ver a Deus”
2548. O
desejo da verdadeira felicidade liberta o homem do apego imoderado aos bens
deste mundo, e terá a sua plenitude na visão beatífica de Deus. “A promessa de
ver a Deus ultrapassa toda a bem-aventurança. […] Na Escritura, ver é possuir.
[…] Por isso aquele que vê a Deus obteve todos os bens que se possam imaginar”.
2549. Resta
ao povo santo lutar, com a graça do Alto, para alcançar os bens que Deus
promete. Para possuir e contemplar a Deus, os fiéis de Cristo mortificam os
seus maus desejos e, com a graça do mesmo Deus, triunfam das seduções do prazer
e do poder.
2550. Neste
caminho da perfeição, o Espírito e a Esposa chamam quem os escuta à comunhão
perfeita com Deus:
“Ali será a
verdadeira glória; ninguém ali será louvado por engano ou por lisonja; as verdadeiras
honras não serão nem recusadas aos que as merecem, nem dadas aos indignos
delas; aliás, não haverá ali indigno que as pretenda, pois só os dignos lá
serão admitidos. Ali reinará a verdadeira paz; ninguém terá oposição, nem de si
mesmo nem dos outros. O próprio Deus será a recompensa da virtude, Ele que a
deu e Se lhe prometeu como recompensa, a maior e melhor que possa existir: […]
“Eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo” (Lv 26, 12) […] É
também este o sentido das palavras do Apóstolo: “Para que Deus seja tudo em
todos” (I Cor 15, 28). Ele mesmo será o fim dos nossos
desejos, Ele que nós havemos de contemplar sem fim, de amar sem saciedade, de
louvar sem cansaço. É este dom, este afeto, esta ocupação será, sem dúvida, comum
a todos como a vida eterna”.
Resumindo:
2551.
“Onde estiver o teu tesouro, aí
estará também o teu coração” (Mt 6, 21).
2552. O
décimo mandamento proíbe a cupidez desregrada, nascida da paixão
imoderada das riquezas e seu poder.
2553. Inveja
é a tristeza que se experimenta perante o bem alheio e o desejo imoderado
de se apropriar dele. É um vício capital.
2554. O
batizado combate a inveja pela benevolência, pela humildade e pelo abandono
à providência divina.
2555. Os
fiéis de Cristo “crucificaram a carne com as suas paixões e desejos”
(Gl 5, 24); são conduzidos pelo Espírito e seguem os seus desejos.
2556. O
desapego das riquezas é necessário para entrar no Reino dos céus.
“Bem-aventurados os pobres em
espírito” (Mt 5, 3).
2557. O
homem de desejo diz: “Quero ver a Deus”, sede de Deus é saciada pela
água da vida eterna.