TERCEIRA PARTE
A VIDA EM CRISTO
INTRODUÇÃO
1691.
“Cristão, reconhece a tua dignidade.
Uma vez constituído participante da natureza divina, não penses em voltar às
antigas misérias da tua vida passada. Lembra-te de que cabeça e de que corpo és
membro. Não te esqueças de que foste libertado do poder das trevas e
transferido para a luz e para o Reino de Deus”.
1692.
O Símbolo da fé, professou a grandeza
dos dons de Deus ao homem na obra da criação e, mais ainda, na da redenção e
santificação. O que a fé confessa, os sacramentos comunicam-no: pelos “sacramentos,
que os fizeram renascer”, os cristãos tornaram-se “filhos de Deus” (1
Jo 3, 1), “participantes da natureza divina” (2 Pe 1, 4).
Reconhecendo pela fé a sua nova dignidade, os cristãos são chamados a levar,
doravante, uma vida digna do Evangelho de Cristo. Pelos sacramentos e pela
oração, recebem a graça de Cristo e os dons do seu Espírito, que dela os tornam
capazes.
1693.
Cristo Jesus fez sempre aquilo que
era do agrado do Pai. Viveu sempre em perfeita comunhão com Ele. De
igual modo, os seus discípulos são convidados a viver sob o olhar do Pai, “que
vê no segredo” (Mt 6, 6), para se tornarem “perfeitos como o Pai Celeste
é perfeito” (Mt 5, 47).
1694. Incorporados
em Cristo pelo Batismo, os cristãos “morreram para o pecado e
vivem para Deus em Cristo Jesus”, participando assim na vida do Ressuscitado.
Seguindo a Cristo e em união com Ele, os cristãos podem esforçar-se por ser
imitadores de Deus, como filhos bem amados, e por proceder com amor”,
conformando os seus pensamentos, palavras e ações com os sentimentos de Cristo
Jesus e seguindo os seus exemplos.
1695.
“Justificados pelo nome de nosso
Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito do nosso Deus” (1 Cor 6, 11),
“santificados e chamados a serem santos” os cristãos tornaram-se “templo
do Espírito Santo” (1 Cor 6, 19). Este, que é o “Espírito do
Filho”, ensina-os a orar ao Pai e, tendo-Se feito vida deles, impele-os a agir para
produzirem os frutos do Espírito mediante uma caridade ativa. Curando as
feridas do pecado, o Espírito Santo renova-nos interiormente por uma
transformação espiritual, ilumina-nos e fortalece-nos para vivermos como “filhos
da luz” (Ef 5, 8) “em toda a espécie de bondade, justiça e verdade
(Ef 5, 9).
1696. O
caminho de Cristo “leva à vida”; um caminho contrário “leva à perdição” (Mt
7, 13). A parábola evangélica dos dois caminhos está
sempre presente na catequese da Igreja. E significa a importância das decisões
morais para a nossa salvação. “Há dois caminhos, um da vida, outro da morte:
mas entre os dois existe uma grande diferença”.
1697.
Na catequese, importa
revelar com toda a clareza a alegria e as exigências do caminho de Cristo. A
catequese da “vida nova” n’Ele (Rm 6, 4), deve ser:
·
uma catequese do Espírito
Santo, mestre interior da vida segundo Cristo, doce hóspede e amigo que
inspira, guia, retifica e fortalece essa vida;
·
uma catequese da graça, pois
é pela graça que somos salvos e é também pela graça que as nossas obras podem
ser frutuosas para a vida eterna;
·
uma catequese das
bem-aventuranças, porque o caminho de Cristo se resume
nelas e é o único caminho da felicidade eterna a que o coração do homem aspira;
·
uma catequese
do pecado e do perdão, porque, sem se reconhecer pecador, o homem não
pode conhecer a verdade sobre si mesmo, condição dum procedimento justo: e, sem
a oferta do perdão, não seria capaz de suportar aquela verdade;
·
uma catequese das virtudes
humanas, que faz apreender a beleza e o
atrativo das retas disposições para o bem;
·
uma catequese das virtudes
cristãs da fé, esperança e caridade, que se
inspira abundantemente no exemplo dos santos;
·
uma catequese do duplo mandamento da
caridade exposto no decálogo;
·
uma catequese eclesial, porque
é nas múltiplas permutas dos “bens espirituais”, na “comunhão dos santos”, que
a vida cristã pode crescer, desenvolver-se e comunicar-se.
1698. A
referência, primeira e última, desta catequese será sempre o próprio Jesus
Cristo, que é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6). De olhos
postos n’Ele com fé, os cristãos podem esperar que Ele próprio realize neles as
suas promessas e, amando-O com o amor com que Ele os amou, podem fazer as obras
correspondentes à sua dignidade:
“Rogo-te que penses em nosso Senhor
Jesus Cristo como tua verdadeira cabeça, e em ti como um dos seus membros. Ele
é para ti como a cabeça para os membros. Tudo o que é d’Ele é teu: o espírito,
o coração, o corpo, a alma e todas as faculdades. Deves usar de todas elas como
se fossem realmente tuas, para servir, louvar, amar e glorificar a Deus. Tu és
para Ele como um membro em relação à cabeça: e, por isso, também Ele deseja
ardentemente servir-Se de todas as tuas faculdades como se fossem suas, para
servir glorificar o Pai”.
“Para mim, viver é Cristo” (Fl 1,
21).
PRIMEIRA SEÇÃO
A
VOCAÇÃO DO HOMEM: A VIDA NO ESPÍRITO
1699. A vida no Espírito Santo realiza a vocação do homem (Capítulo primeiro). É feita de caridade divina e de solidariedade humana (Capítulo segundo). É concedida gratuitamente como salvação (Capítulo terceiro).
CAPÍTULO
PRIMEIRO
A
DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA
1700. A
dignidade da pessoa humana radica na sua criação à imagem e semelhança de
Deus (Artigo 1) e realiza-se na sua vocação à bem-aventurança
divina (Artigo 2). Compete ao ser humano chegar livremente a
esta realização (Artigo 3). Pelos seus atos deliberados (Artigo
4), a pessoa humana conforma-se, ou não, com o bem prometido por Deus
e atestado pela consciência moral (Artigo 5). Os seres humanos
edificam-se a si mesmos e crescem a partir do interior: fazem de toda a sua
vida sensível e espiritual objeto do próprio crescimento (Artigo
6). Com a ajuda da graça, crescem na virtude (Artigo 7), evitam
o pecado e, se o cometeram, entregam-se como o filho pródigo (1) à misericórdia
do Pai dos céus (Artigo 8). Atingem, assim, a perfeição da
caridade.
O
HOMEM, IMAGEM DE DEUS
1701.
“Cristo, […] na própria revelação do
mistério do Pai e do seu amor, manifesta plenamente o homem a si mesmo e
descobre-lhe a sua vocação sublime”. Foi em Cristo, “imagem do Deus invisível”
(Cl 1, 15), que o homem foi criado “à imagem e semelhança” do
Criador. Assim como foi em Cristo, redentor e salvador, que a imagem divina,
deformada no homem pelo primeiro pecado, foi restaurada na sua beleza original
e enobrecida pela graça de Deus.
1702. A
imagem divina está presente em cada homem. Resplandece na comunhão das pessoas,
à semelhança da unidade das Pessoas divinas entre si (cf. Capítulo
segundo).
1703. Dotada
de uma alma “espiritual e imortal” a pessoa humana é “a única criatura sobre a
tema querida por Deus por si mesma”. Desde que é concebida, é destinada para a
bem-aventurança eterna.
1704. A
pessoa humana participa da luz e da força do Espírito divino. Pela razão, é
capaz de compreender a ordem das coisas estabelecida pelo Criador. Pela
vontade, é capaz de se orientar a si própria para o bem verdadeiro. E encontra
a perfeição na “busca e no amor da verdade e do bem”.
1705. Em
virtude da sua alma e das forças espirituais da inteligência e da vontade, o
homem é dotado de liberdade, “sinal privilegiado da imagem divina”.
1706. Mediante
a sua razão, o homem conhece a voz de Deus que o impele “a fazer […] o bem e a
evitar o mal”. Todos devem seguir esta lei, que ressoa na consciência e se
cumpre no amor de Deus e do próximo. O exercício da vida moral atesta a
dignidade da pessoa.
1707. “Seduzido
pelo Maligno desde o começo da história, o homem abusou da sua liberdade”.
Sucumbiu à tentação e cometeu o mal. Conserva o desejo do bem, mas a sua
natureza está ferida pelo pecado original. O homem ficou com a inclinação para
o mal e sujeito ao erro:
O homem
encontra-se, pois, dividido em si mesmo. E assim, toda a vida humana, quer
singular quer coletiva, apresenta-se como uma luta, e quão dramática, entre o
bem e o mal, entre a luz e as trevas”.
1708.
Pela sua paixão, Cristo livrou-nos de
Satanás e do pecado e nos mereceu a vida nova no Espírito Santo. A sua graça
restaura o que o pecado tinha deteriorado em nós.
1709. Quem
crê em Cristo torna-se filho de Deus. Esta adopção filial transforma-o,
dando-lhe a possibilidade de seguir o exemplo de Cristo. Torna-o capaz de agir
com retidão e de praticar o bem. Na união com o seu Salvador, o discípulo
atinge a perfeição da caridade, que é a santidade. Amadurecida na graça, a vida
moral culmina na vida eterna, na glória do céu.
Resumindo:
1710.
“Cristo […] manifesta plenamente o
homem a si mesmo e descobre- lhe a sua vocação sublime”.
1711.
Dotada de uma alma espiritual, de
inteligência e de vontade, a pessoa humana é, desde a sua concepção, ordenada
para Deus e destinada à eterna bem-aventurança. E continua a aperfeiçoar-se na “busca
e amor da verdade e do bem”.
1712.
“A verdadeira liberdade é, no homem,
o sinal privilegiado da imagem de Deus”.
1713.
O homem é obrigado a seguir a lei
moral, que o impele a “fazer […] o bem e a evitar o mal”. Esta
lei ressoa na sua consciência.
1714.
O homem, ferido na sua natureza pelo
pecado original, está sujeito ao erro e inclinado para o mal no exercício da
sua liberdade.
1715.
Quem crê em Cristo possui a vida nova
no Espírito Santo. A vida moral, crescida e amadurecida na graça, deve
consumar-se na glória do céu.
A
NOSSA VOCAÇÃO PARA A BEM-AVENTURANÇA
I. As
bem-aventuranças
1716.
As bem-aventuranças estão no coração
da pregação de Jesus. O seu anúncio retorna as promessas feitas ao povo eleito,
desde Abraão. A pregação de Jesus completa-as, ordenando-as, não já somente à
felicidade resultante da posse de um tema, mas ao Reino dos céus:
“Bem-aventurados os
pobres em espírito, porque deles é o Reino dos céus. Bem-aventurados os que
choram, porque serão consolados. Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a
tema. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os
puros de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os que promovem a paz.
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os
que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o Reino dos céus.
Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos
perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal de vós. Alegrai-vos e exultai, pois
é grande nos céus a vossa recompensa” (Mt 5, 3-12).
1717.
As bem-aventuranças retratam o rosto
de Jesus Cristo e descrevem-nos a sua caridade: exprimem a vocação dos fiéis
associados à glória da sua paixão e ressurreição; definem os atos e atitudes
características da vida cristã; são as promessas paradoxais que sustentam a
esperança no meio das tribulações; anunciam aos discípulos as bênçãos e
recompensas já obscuramente adquiridas; já estão inauguradas na vida da Virgem
Maria e de todos os santos.
II. O desejo
de felicidade
1718.
As bem-aventuranças respondem ao
desejo natural de felicidade. Este desejo é de origem divina; Deus pô-lo no
coração do homem para o atrair a Si, o único que o pode satisfazer:
“Todos nós, sem
dúvida, queremos viver felizes, e não há entre os homens quem não dê o seu
assentimento a esta afirmação, mesmo antes de ser formulada por inteiro”.
“Então, como vos hei de procurar,
Senhor? Visto que, procurando a vós, meu Deus, eu procuro a vida bem-aventurada,
faz com que te procure, para que a minha alma viva! Porque tal como o meu corpo
vive da minha alma, assim a minha alma vive de Ti”.
“Só Deus satisfaz”.
1719.
As bem-aventuranças desvendam o
objetivo da existência humana, o fim último dos atos humanos: Deus chama-nos à
sua própria felicidade. Esta vocação dirige-se a cada um, pessoalmente, mas
também ao conjunto da Igreja, povo novo constituído por aqueles que acolheram a
promessa e dela vivem na fé.
III. A
bem-aventurança cristã
1720. O
Novo Testamento emprega muitas expressões para caracterizar a bem-aventurança a
que Deus chama o homem: a chegada do Reino de Deus; a visão de Deus: “Bem-aventurados
os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5, 8); a entrada na
alegria do Senhor a entrada no repouso de Deus:
“Aí, descansaremos
e veremos: veremos e amaremos; amaremos e louvaremos. Eis a essência do fim sem
fim. E que outro fim mais nosso que chegarmos ao Reino que não terá fim?”.
1721.
Deus nos colocou no mundo para o conhecê-lo,
servi-lo e amá-lo e, assim, chegar ao paraíso. A bem-aventurança nos faz “participantes
da natureza divina” (2 Pd 1, 4) e da vida eterna. Com ela, o homem
entra na glória de Cristo e no gozo da vida trinitária.
1722.
Uma tal bem-aventurança ultrapassa a
inteligência e as simples forças humanas. Resulta de um dom gratuito de Deus.
Por isso se classifica de sobrenatural, tal como a graça, que dispõe o homem
para entrar no gozo de Deus.
“Bem-aventurados os
puros de coração, porque verão a Deus”. É certo que “ninguém pode ver a Deus”
na sua grandeza e glória inenarrável e “continuar a viver”, porque o Pai é
inacessível. Mas, no seu amor, na sua bondade para com os homens e na sua
omnipotência, vai ao ponto de conceder aos que O amam esta graça: ver a Deus
[…] porque “o que é impossível aos homens é possível a Deus””.
1723.
A bem-aventurança prometida
coloca-nos perante as opções morais decisivas. Convida-nos a purificar o nosso
coração dos seus maus instintos e a procurar o amor de Deus acima de tudo. E
ensina-nos que a verdadeira felicidade não reside nem na riqueza ou no
bem-estar, nem na glória humana ou no poder, nem em qualquer obra humana, por
útil que seja, como as ciências, as técnicas e as artes, nem em qualquer criatura,
mas só em Deus, fonte de todo o bem e de todo o amor:
“A riqueza á a
grande divindade deste tempo: é a ela que a multidão, toda a massa dos homens,
presta instintiva homenagem. Mede-se a felicidade pela fortuna, como pela
fortuna se mede a honorabilidade […] tudo provém desta convicção: com a
riqueza, tudo se pode. A riqueza é, pois, um dos ídolos atuais: outro, é a
notoriedade. […] A notoriedade, o facto de se ser conhecido e de dar brado no
mundo (a que poderia chamar-se fama de imprensa), acabou por ser considerada
como um bem em si mesma, um bem soberano, objeto, até, de verdadeira veneração”.
1724. O
decálogo, o sermão da montanha e a catequese apostólica descrevem-nos os
caminhos que conduzem ao Reino dos céus. Por eles avançamos, passo a passo, pelos
atos de cada dia, amparados pela graça do Espírito Santo. Fecundados pela
Palavra de Cristo, pouco a pouco, damos frutos na Igreja para a glória de Deus.
Resumindo:
1725.
As bem-aventuranças retomam e
aperfeiçoam as promessas de Deus, desde Abraão, ordenando-as para o Reino dos
céus. Correspondem ao desejo de felicidade que Deus colocou no coração do
homem.
1726.
As bem-aventuranças ensinam-nos qual
o fim último a que Deus nos chama: o Reino, a visão de Deus, a participação na
natureza divina, a vida eterna, a filiação, o repouso em Deus.
1727.
A bem-aventurança da vida eterna é um
dom gratuito de Deus; é sobrenatural, como a graça que a ela conduz.
1728.
As bem-aventuranças colocam-nos
perante opções decisivas relativamente aos bens terrenos; purificam o nosso
coração, para nos ensinarem a amar a Deus sobre todas as coisas.
1729.
A bem-aventurança do céu determina os
critérios de discernimento no uso dos bens terrenos, em conformidade com a Lei
de Deus.
A
LIBERDADE DO HOMEM
1730. Deus
criou o homem dotado de razão e lhe conferiu dignidade de uma pessoa agraciada
com a iniciativa e o domínio de seus atos. “Deus criou o ser humano e o
entregou às mãos do seu arbítrio” (Eclo 15, 14), para que pudesse
ele mesmo procurar seu Criador e, a este aderindo livremente, chegar à plena e
feliz perfeição”:
“O homem é dotado
de razão e por isso é semelhante a Deus: foi criado livre e senhor de seus atos”.
I. Liberdade
e responsabilidade
1731.
A liberdade é o poder, radicado na
razão e na vontade, de agir ou não agir, de fazer isto ou aquilo, praticando
assim, por si mesmo, ações deliberadas. Pelo livre arbítrio, cada qual dispõe
de si. A liberdade é, no homem, uma força de crescimento e de maturação na
verdade e na bondade. E atinge a sua perfeição quando está ordenada para Deus,
nossa bem-aventurança.
1732.
Enquanto se não fixa definitivamente
no seu bem último, que é Deus, a liberdade implica a possibilidade de escolher
entre o bem e o mal, e, portanto, de crescer na perfeição ou de falhar
e pecar. É ela que caracteriza os atos propriamente humanos. Torna-se fonte de
louvor ou de censura, de mérito ou de demérito.
1733.
Quanto mais o homem fizer o bem, mais
livre se torna. Não há verdadeira liberdade senão no serviço do bem e da
justiça. A opção pela desobediência e pelo mal é um abuso da liberdade e conduz
à escravidão do pecado.
1734. A
liberdade torna o homem responsável pelos seus atos, na medida
em que são voluntários. O progresso na virtude, o conhecimento do bem e a
ascese aumentam o domínio da vontade sobre os próprios atos.
1735.
A imputabilidade e
responsabilidade dum ato podem ser diminuídas, e até anuladas, pela ignorância,
a inadvertência, a violência, o medo, os hábitos, as afeições desordenadas e
outros fatores psíquicos ou sociais.
1736.
Todo o ato diretamente querido é
imputável ao seu autor.
Assim, depois do
pecado no paraíso, o Senhor pergunta a Adão: “Que fizeste’?” (Gn 3,
13). O mesmo faz a Caim. Assim também o profeta Natan ao rei David, após o
adultério com a mulher de Urias e o assassinato deste.
Uma ação pode ser
indiretamente voluntária, quando resulta duma negligência relativa ao que se
deveria ter conhecido ou feito, por exemplo, um acidente de trânsito, provocado
por ignorância do código da estrada.
1737.
Um efeito pode ser tolerado, sem ter
sido querido pelo agente, por exemplo, o esgotamento duma mãe à cabeceira do
seu filho doente. O efeito mau não é imputável se não tiver sido querido nem
como fim nem como meio do ato, como a morte sofrida quando se levava socorro a
uma pessoa em perigo. Para que o efeito mau seja imputável, é necessário que
seja previsível e que aquele que age tenha a possibilidade de o evitar como,
por exemplo, no caso dum homicídio cometido por um condutor em estado de
embriaguez.
1738.
A liberdade exercita-se nas relações
entre seres humanos. Toda a pessoa humana, criada à imagem de Deus, tem o
direito natural de ser reconhecida como ser livre e responsável. Todos devem a
todos este dever do respeito. O direito ao exercício da liberdade
é uma exigência inseparável da dignidade da pessoa humana,
nomeadamente em matéria moral e religiosa. Este direito deve ser civilmente
reconhecido e protegido dentro dos limites do bem comum e da ordem pública.
II. A
liberdade humana na economia da salvação
1739.
Liberdade e pecado. A liberdade
do homem é finita e falível. E, de facto, o homem falhou. Livremente, pecou.
Rejeitando o projeto divino de amor, enganou-se a si mesmo; tornou-se escravo
do pecado. Esta primeira alienação gerou uma multidão de outras. A história da
humanidade, desde as suas origens, dá testemunho de desgraças e opressões
nascidas do coração do homem, como consequência de um mau uso da liberdade.
1740. Ameaças
à liberdade. O exercício da liberdade não implica o
direito de tudo dizer e fazer. É falso pretender que “o homem, sujeito da
liberdade, se basta a si mesmo, tendo por fim a satisfação do seu interesse
próprio no gozo dos bens terrenos”. Por outro lado, as condições de ordem
económica e social, política e cultural, requeridas para um justo exercício da
liberdade, são com demasiada frequência desprezadas e violadas. Estas situações
de cegueira e de injustiça abalam a vida moral e induzem tanto os fracos como
os fortes na tentação de pecar contra a caridade. Afastando-se da lei moral, o
homem atenta contra a sua própria liberdade, agrilhoa-se a si mesmo, quebra os
laços de fraternidade com os seus semelhantes e rebela-se contra a verdade
divina.
1741.
Libertação e salvação.
Pela sua cruz gloriosa, Cristo obteve a salvação de todos os homens.
Resgatou-os do pecado, que os retinha numa situação de escravatura. “Foi para a
liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5, 1). N’Ele, nós comungamos
na verdade que nos liberta. Foi-nos dado o Espírito Santo e, como ensina o
Apóstolo, “onde está o Espírito, aí está a liberdade” (2 Cor 3,
17). Já desde agora nos gloriamos da “liberdade dos filhos de Deus”.
1742. Liberdade
e graça. A graça de Cristo não faz
concorrência de modo nenhum, à nossa liberdade, quando esta corresponde ao
sentido da verdade e do bem que Deus colocou no coração do homem. Pelo
contrário, e como o certifica a experiência cristã sobretudo na oração, quanto
mais dóceis formos aos impulsos da graça, tanto mais crescem a nossa liberdade
interior e a nossa segurança nas provações, como também perante as pressões e
constrangimentos do mundo exterior. Pela ação da graça, o Espírito Santo
educa-nos para a liberdade espiritual, para fazer de nós colaboradores livres
da sua obra na Igreja e no mundo:
“Deus eterno e
misericordioso, afastai de nós toda a adversidade, para que, sem obstáculos do
corpo ou do espírito, possamos livremente cumprir a vossa vontade”.
Resumindo:
1743. “Deus
[…] deixou o homem entregue à sua própria decisão” (Sir 15, 14), para que ele
possa aderir livremente ao seu Criador e chegar assim à perfeição beatífica.
1744. A
liberdade é a capacidade de agir ou não agir e, assim, de realizar por si mesmo
ações deliberadas. Atinge a perfeição do seu ato, quando está ordenada para
Deus, supremo Bem.
1745. A
liberdade caracteriza os atos propriamente humanos. Torna o ser humano
responsável pelos atos de que é autor voluntário. O seu agir deliberado
pertence-lhe como próprio.
1746. A
imputabilidade ou responsabilidade duma ação pode ser diminuída, ou suprimida,
por ignorância, violência, medo e outros fatores psíquicos ou sociais.
1747. O
direito ao exercício da liberdade é uma exigência inseparável da dignidade do
homem, sobretudo em matéria religiosa e moral. Mas o exercício da liberdade não
implica o suposto direito de tudo dizer ou de tudo fazer.
1748. “Foi
para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5, 1).
A
MORALIDADE DOS ATOS HUMANOS
1749. A
liberdade faz do homem um sujeito moral. Quando age de maneira deliberada, o
homem é, por assim dizer, o pai dos seus atos. Os atos
humanos, quer dizer, livremente escolhidos em consequência de um juízo de
consciência, são moralmente qualificáveis. São bons ou maus.
I. As fontes
da moralidade
1750. A
moralidade dos atos humanos depende:
·
do objeto escolhido;
·
do fim visado ou da intenção:
·
das circunstâncias da ação.
O objeto, a
intenção e as circunstâncias são as “fontes” ou elementos constitutivos da
moralidade dos atos humanos.
1751.
O objeto escolhido é
um bem para o qual a vontade tende deliberadamente. E a matéria dum ato humano.
O objeto escolhido especifica moralmente o ato da vontade, na medida em que a
razão o reconhece e o julga conforme, ou não, ao verdadeiro bem. As regras
objetivas da moralidade enunciam a ordem racional do bem e do mal, atestada
pela consciência.
1752.
Em face do objeto, a intenção coloca-se
do lado do sujeito que age. Porque está na fonte voluntária da ação e a
determina pelo fim em vista, a intenção é um elemento essencial na qualificação
moral da ação. O fim em vista é o primeiro dado da intenção e designa a meta a
atingir pela ação. A intenção é um movimento da vontade em direção ao fim; diz
respeito ao termo do agir. É o alvo do bem que se espera da ação empreendida.
Não se limita à direção das nossas ações singulares, mas pode ordenar para um
mesmo fim ações múltiplas: pode orientar toda a vida para o fim último. Por
exemplo, um serviço prestado tem por fim ajudar o próximo, mas pode ser
inspirado, ao mesmo tempo, pelo amor de Deus como fim último de todas as ações.
Uma mesma ação pode também ser inspirada por várias intenções, como prestar um
serviço para obter um favor ou para satisfazer a vaidade.
1753.
Uma intenção boa (por exemplo: ajudar
o próximo) não torna bom nem justo um comportamento em si mesmo desordenado
(como a mentira e a maledicência). O fim não justifica os meios. Assim, não se
pode justificar a condenação dum inocente como meio legítimo para salvar o
povo. Pelo contrário, uma intenção má acrescentada (por exemplo, a vanglória)
torna mau um ato que, em si, pode ser bom (como a esmola).
1754. As circunstâncias, incluindo
as consequências, são elementos secundários dum ato moral. Contribuem para
agravar ou atenuar a bondade ou malícia moral dos atos humanos (por exemplo, o
montante dum roubo). Podem também diminuir ou aumentar a responsabilidade do
agente (por exemplo, agir por medo da morte). As circunstâncias não podem, de
per si, modificar a qualidade moral dos próprios atos; não podem tornar boa nem
justa uma ação má em si mesma.
II. Os
atos bons e os atos maus
1755.
O ato moralmente bom pressupõe,
em simultâneo, a bondade do objeto, da finalidade e das circunstâncias. Um fim
mau corrompe a ação, mesmo que o seu objeto seja bom em si (como orar e jejuar “para
ser visto pelos homens”).
O
objeto da escolha pode, por si só, viciar todo um modo
de agir. Há comportamentos concretos – como a fornicação – cuja escolha é
sempre um erro, porque comporta uma desordem da vontade, isto é, um mal moral.
1756.
É, portanto, erróneo julgar a
moralidade dos atos humanos tendo em conta apenas a intenção que os inspira, ou
as circunstâncias (meio, pressão social, constrangimento ou necessidade de
agir, etc.) que os enquadram. Há atos que, por si e em si mesmos,
independentemente das circunstâncias e das intenções, são sempre gravemente
ilícitos em razão do seu objeto; por exemplo, a blasfémia e o jurar falso, o
homicídio e o adultério. Não é permitido fazer o mal para que dele resulte um
bem.
Resumindo:
1757.
O objeto, a intenção e as
circunstâncias constituem as três “fontes” da moralidade dos atos humanos.
1758.
O objeto escolhido especifica
moralmente o ato da vontade, conforme a razão o reconhece e o julga bom ou mau.
1759.
“Não se pode justificar uma ação má
feita com boa intenção”. O fim não justifica os
meios.
1760. O
ato moralmente bom pressupõe, em simultâneo, a bondade do objeto, da finalidade
e das circunstâncias.
1761.
Há comportamentos concretos pelos
quais é sempre errado optar, porque a sua escolha inclui uma desordem da
vontade, isto é, um mal moral. Não é permitido fazer o mal para que dele
resulte um bem.
A
MORALIDADE DAS PAIXÕES
1762.
A pessoa humana ordena-se à
bem-aventurança através dos seus atos deliberados: as paixões ou sentimentos
que experimenta podem dispô-la nesse sentido e contribuir para isso.
I. As paixões
1763.
O termo “paixões” pertence ao patrimônio
cristão. Os sentimentos ou paixões são as emoções ou movimentos da
sensibilidade. que inclinam a agir, ou a não agir, em vista do que se sentiu ou
imaginou como bom ou como mau.
1764. As
paixões são componentes naturais do psiquismo humano, constituem o lugar de
passagem e garantem a ligação entre a vida sensível e a vida do espírito. Nosso
Senhor designa o coração do homem como fonte de onde brota o movimento das
paixões.
1765.
São numerosas as paixões. A mais
fundamental é o amor, provocado pela atracção do bem. O amor causa o desejo do
bem ausente e a esperança de o alcançar. Este movimento tem o seu termo no
prazer e na alegria do bem possuído. A apreensão pelo mal causa o ódio, a
aversão e o receio do mal futuro; este movimento termina na tristeza pelo mal
presente ou na cólera que a ele se opõe.
1766.
“Amar é querer bem a alguém”. Todos
os outros afetos nascem neste movimento original do coração do homem para o
bem. Só o bem é amado. “As paixões são más se o amor é mau, e boas se ele for
bom”.
II.
Paixões e vida moral
1767.
Em si mesmas, as paixões não são nem
boas nem más. Só recebem qualificação moral na medida em que dependem
efetivamente da razão e da vontade. As paixões dizem-se voluntárias, “ou porque
são comandadas pela vontade, ou porque a vontade não Lhes opõe obstáculos”. Pertence
à perfeição do bem moral ou humano que as paixões sejam reguladas pela razão.
1768. Os
grandes sentimentos não determinam nem a moralidade nem a santidade das
pessoas; são o reservatório inesgotável das imagens e afetos com que se exprime
a vida moral. As paixões são moralmente boas quando contribuem para uma ação
boa, e más, no caso contrário. A vontade reta ordena para o bem e para a
bem-aventurança os movimentos sensíveis que assume; a vontade má sucumbe às
paixões desordenadas e exacerba-as. As emoções e os sentimentos podem ser
assumidos pelas virtudes, ou pervertidos pelos vícios.
1769.
Na vida cristã, o próprio Espírito
Santo realiza a sua obra mobilizando todo o ser, mesmo as dores, temores e
tristezas, como se vê claramente na agonia e paixão do Senhor. Em Cristo, os
sentimentos humanos podem alcançar a sua consumação na caridade e na
bem-aventurança divina.
1770. A
perfeição moral consiste em que o homem não seja movido para o bem só pela
vontade, mas também pelo apetite sensível, segundo esta palavra do Salmo: “O
meu coração e a minha carne exultam no Deus vivo” (Sl 84, 3).
Resumindo:
1771.
O termo “paixões” designa afetos ou
sentimentos. Através das suas emoções, o homem pressente o bem e suspeita do
mal.
1772.
As principais paixões são o amor e o
ódio, o desejo e o temor; a alegria, a tristeza e a cólera.
1773.
Nas paixões, enquanto movimentos da
sensibilidade, não há bem, nem mal moral. Mas, na medida em que dependem ou não
da razão e da vontade, há nelas bem ou mal moral.
1774. As
emoções e os sentimentos podem ser assumidos pelas virtudes, ou pervertidos
pelos vícios.
1775.
A perfeição do bem moral consiste em
que o homem não seja movido para o bem só pela vontade, mas também pelo seu “coração”.
A
CONSCIÊNCIA MORAL
1776.
“No mais profundo da consciência, o
homem descobre uma lei que não se deu a si mesmo, mas à qual deve obedecer e
cuja voz ressoa, quando necessário, aos ouvidos do seu coração, chamando-o
sempre a amar e fazer o bem e a evitar o mal […]. De facto, o homem tem no
coração uma lei escrita pelo próprio Deus […]. A consciência é o núcleo mais
secreto e o sacrário do homem, no qual ele se encontra a sós com Deus, cuja voz
ressoa na intimidade do seu ser”.
I. O juízo da
consciência
1777.
Presente no coração da pessoa, a
consciência moral leva-a, no momento oportuno, a fazer o bem e a evitar o mal.
E também julga as opções concretas, aprovando as boas e denunciando as más. Ela
atesta a autoridade da verdade em relação ao Bem supremo, pelo qual a pessoa
humana se sente atraída e cujos mandamentos acolhe. Quando presta atenção à
consciência moral, o homem prudente pode ouvir Deus a falar-lhe.
1778. A
consciência moral é um juízo da razão, pelo qual a pessoa humana reconhece a
qualidade moral dum ato concreto que vai praticar, que está prestes a executar
ou que já realizou. Em tudo quanto diz e faz, o homem tem obrigação de seguir
fielmente o que sabe ser justo e reto. E pelo juízo da sua consciência que o
homem tem a percepção e reconhece as prescrições da lei divina:
A consciência “é
uma lei do nosso espírito, mas que o ultrapassa, nos dá ordens, e significa
responsabilidade e dever, temor e esperança […]. É a mensageira daquele que,
tanto no mundo da natureza como no da graça, nos fala veladamente, nos instrui
e nos governa. A consciência é o primeiro de todos os vigários de Cristo”.
1779.
Importa que cada um esteja
suficientemente presente a si mesmo para ouvir e seguir a voz da sua
consciência. Esta exigência de interioridade é tanto mais
necessária quanto a vida nos leva muitas vezes a subtrair-nos a qualquer
reflexão, exame ou introspecção:
“Regressa à tua consciência,
interroga-a […] Voltai, irmãos, ao vosso interior, e, em tudo quanto fazeis,
olhai para a Testemunha que é Deus”.
1780. A
dignidade da pessoa humana implica e exige a retidão da consciência
moral. A consciência moral compreende a percepção dos princípios da
moralidade (“sindérese”), a sua aplicação em determinadas circunstâncias por
meio de um discernimento prático das razões e dos bens e, por fim, o juízo
emitido sobre os atos concretos a praticar ou já praticados. A verdade sobre o
bem moral, declarada na lei da razão, é reconhecida prática e concretamente
pelo prudente juízo da consciência. Classifica-se de prudente
o homem que opta em conformidade com este juízo.
1781.
A consciência permite assumir a responsabilidade
dos atos praticados. Se o homem comete o mal, o justo juízo da consciência
pode ser nele a testemunha da verdade universal do bem e, ao mesmo tempo, da
maldade da sua opção concreta. O veredicto do juízo da consciência continua a
ser um penhor de esperança e de misericórdia. Atestando a falta cometida,
lembra o perdão a pedir, o bem a praticar ainda e a virtude a cultivar
incessantemente com a graça de Deus.
“Tranquilizaremos
diante dele o nosso coração, se o nosso coração vier a acusar-nos. Pois Deus é
maior do que o nosso coração e conhece todas as coisas” (1 Jo 3,
19-20).
1782.
O homem tem o direito de agir em
consciência e em liberdade a fim de tomar pessoalmente decisões morais. “O
homem não deve ser forçado a agir contra a própria consciência. Nem deve também
ser impedido de atuar segundo ela, sobretudo em matéria religiosa”.
II.
A formação da consciência
1783.
A consciência deve ser informada e o
juízo moral esclarecido. Uma consciência bem formada é reta e verídica; formula
os seus juízos segundo a razão, em conformidade com o bem verdadeiro querido
pela sabedoria do Criador. A formação da consciência é indispensável aos seres
humanos, submetidos a influências negativas e tentados pelo pecado a preferir o
seu juízo próprio e a recusar os ensinamentos autorizados.
1784. A
formação da consciência é tarefa para toda a vida. Desde os primeiros anos, a
criança desperta para o conhecimento e para a prática da lei interior
reconhecida pela consciência moral. Uma educação prudente ensina a virtude:
preserva ou cura do medo, do egoísmo e do orgulho, dos ressentimentos da
culpabilidade e dos movimentos de complacência, nascidos da fraqueza e das
faltas humanas. A formação da consciência garante a liberdade e gera a paz do
coração.
1785.
Na formação da consciência, a Palavra
de Deus é a luz do nosso caminho. Devemos assimilá-la na fé e na oração, e
pô-la em prática. Devemos também examinar a nossa consciência, de olhos postos
na cruz do Senhor. Somos assistidos pelos dons do Espírito Santo, ajudados pelo
testemunho e pelos conselhos dos outros e guiados pelo ensino autorizado da
Igreja.
III. Escolher
segundo a consciência
1786. Perante
a necessidade de decidir moralmente, a consciência pode emitir um juízo reto,
de acordo com a razão e a lei de Deus, ou, pelo contrário, um juízo erróneo,
que se afaste delas.
1787. Por
vezes, o homem vê-se confrontado com situações que tornam o juízo moral menos
seguro e a decisão difícil. Mas deve procurar sempre o que é justo e bom e
discernir a vontade de Deus expressa na lei divina.
1788. Para
isso, o homem esforça-se por interpretar os dados da experiência e os sinais
dos tempos, graças à virtude da prudência, aos conselhos de pessoas sensatas e
à ajuda do Espírito Santo e dos seus dons.
1789. Algumas
regras aplicam-se a todos os casos:
·
nunca é permitido fazer mal para que
daí resulte um bem;
·
a “regra de ouro” é: “Tudo quanto quereis
que os homens vos façam, fazei-o vós a eles” (Mt 7, 12).
·
a caridade passa sempre pelo respeito
do próximo e da sua consciência:
“Pecando assim
contra os irmãos e ferindo a consciência... É contra Cristo que pecais” (1 Cor 8,
12). “É melhor abster-se[…] de qualquer coisa que possa fazer o teu irmão possa
tropeçar, cair ou fraquejar” (Rm 14, 21).
IV. O juízo
erróneo
1790. O
ser humano deve obedecer sempre ao juízo certo da sua consciência. Agindo
deliberadamente contra ele, condenar-se-ia a si mesmo. Mas pode acontecer que a
consciência moral esteja na ignorância e faça juízos erróneos sobre atos a
praticar ou já praticados.
1791.
Muitas vezes, tal ignorância pode ser
imputada à responsabilidade pessoal. Assim acontece “quando o homem pouco se
importa de procurar a verdade e o bem e quando a consciência se vai
progressivamente cegando, com o hábito do pecado”. Nesses casos, a pessoa é
culpada do mal que comete.
1792.
A ignorância a respeito de Cristo e
do seu Evangelho, os maus exemplos dados por outros, a escravidão das paixões,
a pretensão de uma mal entendida autonomia da consciência, a rejeição da
autoridade da Igreja e do seu ensino, a falta de conversão e de caridade, podem
estar na origem dos desvios do juízo na conduta moral.
1793.
Se, pelo contrário, a ignorância é
invencível, ou o juízo erróneo sem responsabilidade do sujeito moral, o mal
cometido pela pessoa não pode ser imputado. Mas nem por isso deixa de ser um
mal, uma privação, uma desordem. É preciso trabalhar, portanto, para corrigir
dos seus erros a consciência moral.
1794. A
consciência boa e pura é iluminada pela fé verdadeira. Porque a caridade
procede, ao mesmo tempo, “dum coração puro, de uma boa consciência e de uma fé
sincera” (1 Tm 1, 5).
“Quanto mais
prevalecer a reta consciência, tanto mais as pessoas e os grupos estarão longe
da arbitrariedade cega e procurarão conformar-se com as normas objetivas da
moralidade”.
Resumindo:
1795.
“A consciência é o núcleo mais
secreto e o sacrário do homem, no qual ele se encontra a sós com Deus, cuja voz
ressoa na intimidade do seu ser”.
1796.
A consciência moral é um juízo da
razão, pelo qual a pessoa humana reconhece a qualidade moral dum ato concreto.
1797.
Para o homem que procedeu mal, o
veredicto da consciência é um penhor de conversão e de esperança.
1798. Uma
consciência bem formada é reta e verídica. Formula os seus juízos segundo a
razão e em conformidade com o verdadeiro bem, querido pela sabedoria do
Criador. Cada qual deve procurar os meios para formar a sua consciência.
1799.
Perante a necessidade de decidir
moralmente, a consciência pode formular um juízo reto, de acordo com a razão e
a lei divina, ou, pelo contrário, um juízo erróneo, que das mesmas se afasta.
1800. O
ser humano deve obedecer sempre ao juízo certo da sua consciência.
1801.
A consciência moral pode permanecer
na ignorância ou fazer juízos erróneos. Tal ignorância e erros nem sempre são
isentos de culpabilidade.
1802. A
Palavra de Deus é luz para os nossos passos. Devemos assimilá-la na fé e na
oração e pô-la em prática. É assim que se forma a consciência moral.
AS
VIRTUDES
1803.
“Tudo o que é verdadeiro, nobre e
justo, tudo o que é puro, amável e de boa reputação, tudo o que é virtude e
digno de louvor, isto deveis ter no pensamento” (Fl 4, 8).
A virtude é uma
disposição habitual e firme para praticar o bem. Permite à pessoa não somente
praticar atos bons, mas dar o melhor de si mesma. A pessoa virtuosa tende para
o bem com todas as suas forças sensíveis e espirituais; procura o bem e opta
por ele em atos concretos.
“O fim duma vida virtuosa consiste em
tornar-se semelhante a Deus”.
I. As
virtudes humanas
1804. As virtudes
humanas são atitudes firmes, disposições estáveis, perfeições
habituais da inteligência e da vontade, que regulam os nossos atos, ordenam as
nossas paixões e guiam o nosso procedimento segundo a razão e a fé. Conferem
facilidade, domínio e alegria para se levar uma vida moralmente boa. Homem
virtuoso é aquele que livremente pratica o bem.
As virtudes morais
são humanamente adquiridas. São os frutos e os germes de atos moralmente bons e
dispõem todas as potencialidades do ser humano para comungar no amor divino.
DISTINÇÃO DAS VIRTUDES CARDEAIS
1805. Há
quatro virtudes que desempenham um papel de charneira. Por isso, se chamam “cardeais”;
todas as outras se agrupam em torno delas. São: a prudência, a justiça, a
fortaleza e a temperança. “Se alguém ama a justiça, o fruto dos seus trabalhos
são as virtudes, porque ela ensina a temperança e a prudência, a justiça e a
fortaleza” (Sb 8, 7). Com estes ou outros nomes, estas
virtudes são louvadas em numerosas passagens da Sagrada Escritura.
1806. A
prudência é a virtude que dispõe a razão prática
para discernir, em qualquer circunstância, o nosso verdadeiro bem e para
escolher os justos meios de o atingir. “O homem prudente vigia os seus passos”
(Pr 14, 15). “Sede ponderados e comedidos, para poderdes orar” (1
Pe 4, 7). A prudência é a “reta norma da ação”, escreve São Tomás seguindo
Aristóteles. Não se confunde, nem com a timidez ou o medo, nem com a
duplicidade ou dissimulação. É chamada “auriga virtutum – condutor
das virtudes”, porque guia as outras virtudes, indicando-lhes a regra e a
medida. É a prudência que guia imediatamente o juízo da consciência. O homem
prudente decide e ordena a sua conduta segundo este juízo. Graças a esta
virtude, aplicamos sem erro os princípios morais aos casos particulares e
ultrapassamos as dúvidas sobre o bem a fazer e o mal a evitar.
1807. A
justiça é a virtude moral que consiste na
constante e firme vontade de dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido. A
justiça para com Deus chama-se “virtude da religião”. Para com os homens, a
justiça leva a respeitar os direitos de cada qual e a estabelecer, nas relações
humanas, a harmonia que promove a equidade em relação às pessoas e ao bem
comum. O homem justo, tantas vezes evocado nos livros santos, distingue-se pela
retidão habitual dos seus pensamentos e da sua conduta para com o próximo.
“Não cometerás
injustiças nos julgamentos. Não favorecerás o pobre, nem serás complacente para
com os poderosos. Julgarás o teu próximo com imparcialidade” (Lv 19,
15). “Senhores, dai aos vossos escravos o que é justo e equitativo,
considerando que também vós tendes um Senhor no céu” (Cl 4,
1).
1808. A
fortaleza é a virtude moral que, no meio das
dificuldades, assegura a firmeza e a constância na prossecução do bem. Torna
firme a decisão de resistir às tentações e de superar os obstáculos na vida
moral. A virtude da fortaleza dá capacidade para vencer o medo, mesmo da morte,
e enfrentar a provação e as perseguições. Dispõe a ir até à renúncia e ao
sacrifício da própria vida, na defesa duma causa justa. “O Senhor é a minha
fortaleza e a minha glória” (Sl 118, 14). “No mundo haveis de
sofrer tribulações: mas tende coragem! Eu venci o mundo!” (Jo 16,
33).
1809. A
temperança é a virtude moral que modera a
atracção dos prazeres e proporciona o equilíbrio no uso dos bens criados.
Assegura o domínio da vontade sobre os instintos e mantém os desejos nos
limites da honestidade. A pessoa temperante orienta para o bem os apetites
sensíveis, guarda uma sã discrição e não se deixa arrastar pelas paixões do
coração. A temperança é muitas vezes louvada no Antigo Testamento: “Não te
deixes levar pelas tuas más inclinações e refreia os teus apetites” (Sir 18,
30). No Novo Testamento, é chamada “moderação”, ou “sobriedade”. Devemos “viver
com moderação, justiça e piedade no mundo presente” (Tt 2,
12).
“Viver bem é amar a
Deus de todo o coração, com toda a alma e com todo o proceder […], de tal modo
que se lhe dedica um amor incorrupto e íntegro (pela temperança), que mal algum
poderá abalar (fortaleza), que a ninguém mais serve (justiça), que cuida de
discernir todas as coisas para não se deixar surpreender pela astúcia e pela
mentira (prudência)”.
AS VIRTUDES E A GRAÇA
1810.
As virtudes humanas, adquiridas pela
educação, por atos deliberados e por uma sempre renovada perseverança no
esforço, são purificadas e elevadas pela graça divina. Com a ajuda de Deus,
forjam o carácter e facilitam a prática do bem. O homem virtuoso sente-se feliz
ao praticá-las.
1811.
Não é fácil, ao homem ferido pelo pecado,
manter o equilíbrio moral. O dom da salvação, que nos veio por Cristo, dá-nos a
graça necessária para perseverar na busca das virtudes. Cada qual deve pedir
constantemente esta graça de luz e de força, recorrer aos sacramentos, cooperar
com o Espírito Santo e seguir os seus apelos a amar o bem e acautelar-se do
mal.
II. As
virtudes teologais
1812.
As virtudes humanas radicam nas
virtudes teologais, que adaptam as faculdades do homem à participação na
natureza divina. De facto, as virtudes teologais referem-se diretamente a Deus
e dispõem os cristãos para viverem em relação com a Santíssima Trindade. Têm
Deus Uno e Trino por origem, motivo e objeto.
1813.
As virtudes teologais fundamentam,
animam e caracterizam o agir moral do cristão. Elas dão forma a todas as
virtudes morais e as vivificam. São infundidas por Deus na alma dos fiéis para
os tornar capazes de proceder como filhos seus e assim merecerem a vida eterna.
São o penhor da presença e da ação do Espírito Santo nas faculdades do ser
humano. São três as virtudes teologais: fé, esperança e caridade.
A FÉ
1814.
A fé é a virtude teologal pela qual
cremos em Deus e em tudo o que Ele nos disse e revelou e que a santa Igreja nos
propõe para acreditarmos, porque Ele é a própria verdade. Pela fé, “o homem
entrega-se total e livremente a Deus”. E por isso, o crente procura conhecer e
fazer a vontade de Deus. “O justo viverá pela fé” (Rm 1, 17).
A fé viva “atua pela caridade” (Gl 5, 6).
1815.
O dom da fé permanece naquele que não
pecou contra ela (68). Mas, “sem obras, a fé está morta” (Tg 2,
26): privada da esperança e do amor, a fé não une plenamente o fiel a Cristo,
nem faz dele um membro vivo do seu corpo.
1816.
O discípulo de Cristo, não somente
deve guardar a fé e viver dela, como ainda professá-la, dar firme testemunho
dela e propagá-la: “Todos devem estar dispostos a confessar Cristo diante dos
homens e a segui-Lo no caminho da cruz, no meio das perseguições que nunca
faltam à Igreja”. O serviço e testemunho da fé são requeridos para a salvação: “A
todo aquele que me tiver reconhecido diante dos homens, também Eu o
reconhecerei diante do meu Pai que está nos céus. Mas àquele que me tiver
negado diante dos homens, também Eu o negarei diante do meu Pai que está nos
céus” (Mt 10, 32-33).
A ESPERANÇA
1817.
A esperança é a virtude teologal pela
qual desejamos o Reino dos céus e a vida eterna como nossa felicidade, pondo
toda a nossa confiança nas promessas de Cristo e apoiando-nos, não nas nossas
forças, mas no socorro da graça do Espírito Santo. “Conservemos firmemente a
esperança que professamos, pois Aquele que fez a promessa é fiel” (Heb 10,
23). “O Espírito Santo, que Ele derramou abundantemente sobre nós, por meio de
Jesus Cristo nosso Salvador, para que, justificados pela sua graça, nos
tornássemos, em esperança, herdeiros da vida eterna” (Tt 3, 6-7).
1818.
A virtude da esperança corresponde ao
desejo de felicidade que Deus colocou no coração de todo o homem; assume as
esperanças que inspiram as atividades dos homens, purifica-as e ordena-as para
o Reino dos céus; protege contra o desânimo; sustenta no abatimento; dilata o
coração na expectativa da bem-aventurança eterna. O ânimo que a esperança dá
preserva do egoísmo e conduz à felicidade da caridade.
1819.
A esperança cristã retorna e realiza
a esperança do povo eleito, que tem a sua origem e modelo na esperança
de Abraão, o qual, em Isaac, foi cumulado das promessas de Deus e
purificado pela provação do sacrifício. “Contra toda a esperança humana, Abraão
teve esperança e acreditou. Por isso, tornou-se pai de muitas nações” (Rm 4,
18).
1820. A
esperança cristã manifesta-se, desde o princípio da pregação de Jesus, no
anúncio das bem-aventuranças. As bem-aventuranças elevam a
nossa esperança para o céu, como nova tema prometida e traçam-lhe o caminho
através das provações que aguardam os discípulos de Jesus. Mas, pelos méritos
do mesmo Jesus Cristo e da sua paixão, Deus guarda-nos na “esperança que não
engana” (Rm 5, 5). A esperança é “a âncora da alma, inabalável
e segura” que penetra […] “onde entrou Jesus como nosso precursor” (Heb 6,
19-20). É também uma arma que nos protege no combate da salvação: “Revistamo-nos
com a couraça da fé e da caridade, com o capacete da esperança da salvação” (1
Ts 5, 8). Proporciona-nos alegria, mesmo no meio da provação: “alegres
na esperança, pacientes na tribulação” (Rm 12, 12). Exprime-se
e nutre-se na oração, particularmente na oração do Pai-Nosso, resumo de tudo o
que a esperança nos faz desejar.
1821.
Podemos, portanto, esperar a glória
do céu prometida por Deus àqueles que O amam e fazem a sua vontade. Em todas as
circunstâncias, cada qual deve esperar, com a graça de Deus, “permanecer firme
até ao fim” e alcançar a alegria do céu, como eterna recompensa de Deus pelas
boas obras realizadas com a graça de Cristo. É na esperança que a Igreja pede
que
“todos os homens se salvem” (1
Tm 2, 4) e ela própria aspira a ficar, na glória do céu, unida a
Cristo, seu Esposo:
“Espera, espera,
que não sabes quando virá o dia nem a hora. Vela com cuidado, que tudo passa
com brevidade, embora o teu desejo faça o certo duvidoso e longo o tempo breve.
Olha que quanto mais pelejares, mais mostrarás o amor que tens a teu Deus, e
mais te regozijarás com teu Amado em gozo e deleite que não pode ter fim”.
A CARIDADE
1822.
A caridade é a virtude teologal pela
qual amamos a Deus sobre todas as coisas por Ele mesmo, e ao próximo como a nós
mesmos, por amor de Deus.
1823.
Jesus faz da caridade o mandamento
novo. Amando os seus “até ao fim” (Jo 13, 1), manifesta o
amor do Pai, que Ele próprio recebe. E os discípulos, amando-se uns aos outros,
imitam o amor de Jesus, amor que eles recebem também em si. É por isso que
Jesus diz: “Assim como o Pai Me amou, também Eu vos amei. Permanecei no meu
amor” (Jo 15, 9). E ainda:
“É este o meu
mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei” (Jo 15,
12).
1824. Fruto
do Espírito e plenitude da Lei, a caridade guarda os mandamentos de
Deus e do seu Cristo: “Permanecei no meu amor. Se guardardes os meus
mandamentos, permanecereis no meu amor” (Jo 15, 9- 10).
1825.
Cristo morreu por amor de nós, sendo
nós ainda “inimigos” (Rm 5, 10). O Senhor pede-nos que, como Ele, amemos
até os nossos inimigos, que nos façamos o próximo do mais afastado, que
amemos as crianças e os pobres como a Ele próprio.
O apóstolo São
Paulo deixou-nos um incomparável quadro da caridade: “A caridade é paciente, a
caridade é benigna; não é invejosa, não é altiva nem orgulhosa; não é
inconveniente, não procura o próprio interesse, não se imita, não guarda
ressentimento, não se alegra com a injustiça, mas alegra-se com a verdade; tudo
desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Cor 13, 4-
7).
1826. Sem
a caridade, diz ainda o Apóstolo, “nada sou”. E tudo o que for privilégio,
serviço, ou mesmo virtude…, se não tiver caridade “de nada me aproveita”. A
caridade é superior a todas as virtudes. É a primeira das virtudes teologais: “Agora
permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade; mas a
maior de todas é a caridade” (1 Cor 13, 13).
1827.
O exercício de todas as virtudes é
animado e inspirado pela caridade. Esta é o “vínculo da perfeição” (Cl 3,
14) e a forma das virtudes: articula-as e ordena-as entre si;
é a fonte e o termo da sua prática cristã. A caridade assegura e purifica a
nossa capacidade humana de amar e eleva-a à perfeição sobrenatural do amor
divino.
1828. A
prática da vida moral animada pela caridade dá ao cristão a liberdade
espiritual dos filhos de Deus. O cristão já não está diante de Deus como um
escravo, com temor servil, nem como o mercenário à espera do salário, mas como
um filho que corresponde ao amor “daquele que nos amou primeiro” (1
Jo 4, 19):
“Nós, ou nos
desviamos do mal por temor do castigo e estamos na atitude do escravo, ou
vivemos à espera da recompensa e parecemo-nos com os mercenários; ou, finalmente,
é pelo bem em si e por amor d’Aquele que manda, que obedecemos […], e então
estamos na atitude própria dos filhos”.
1829. Os frutos da
caridade são: a alegria, a paz e a misericórdia; exige a prática do bem e a
correção fraterna; é benevolente; suscita a reciprocidade, é desinteressada e
liberal: é amizade e comunhão:
“A consumação de
todas as nossas obras é o amor. É nele que está o fim: é para a conquista dele
que corremos; corremos para lá chegar e, uma vez chegados, é nele que
descansamos”.
III. Os
dons e os frutos do Espírito Santo
1830. A
vida moral dos cristãos é sustentada pelos dons do Espírito Santo. Estes são
disposições permanentes que tornam o homem dócil aos impulsos do Espírito
Santo.
1831.
Os sete dons do
Espírito Santo são: sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, ciência,
piedade e temor de Deus. Pertencem em plenitude a Cristo, filho de David.
Completam e levam à perfeição as virtudes de quem os recebe. Tornam os fiéis
dóceis, na obediência pronta, às inspirações divinas.
“Que o vosso
espírito de bondade me conduza pelo caminho reto” (Sl 143, 10). “Todos
aqueles que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus […]; se
somos filhos, também somos herdeiros: herdeiros de Deus, co- herdeiros de
Cristo” (Rm 8, 14.17).
1832.
Os frutos do
Espírito são perfeições que o Espírito Santo forma em nós, como primícias da
glória eterna. A tradição da Igreja enumera doze: “caridade, alegria, paz,
paciência, bondade, longanimidade, benignidade, mansidão, fidelidade, modéstia,
continência, castidade” (Gl 5, 22-23).
Resumindo:
1833.
A virtude é uma disposição habitual e
firme para praticar o bem.
1834. As
virtudes humanas são disposições estáveis da inteligência e da vontade, que
regulam os nossos atos, ordenam as nossas paixões e guiam o
nosso procedimento segundo a razão e a fé. Podem ser agrupadas à roda das
quatro virtudes cardiais: prudência, justiça, fortaleza e temperança.
1835.
A prudência dispõe a razão prática
para discernir, em todas as circunstâncias, o verdadeiro bem e para escolher os
justos meios de o realizar.
1836. A
justiça consiste na constante e firme vontade de dar a Deus e ao próximo o que
lhes é devido.
1837.
A .fortaleza
assegura, no meio das dificuldades, a firmeza e a constância na prossecução do
bem.
1838. A
temperança modera a atracção dos prazeres sensíveis e proporciona equilíbrio no
uso dos bens criados.
1839. As
virtudes morais desenvolvem-se pela educação, por atos deliberados e pela
perseverança no esforço. A graça divina purifica-as e eleva-as.
1840. As
virtudes teologais dispõem os cristãos para viverem em relação com a Santíssima
Trindade. Têm, Deus por origem, motivo e objeto – Deus conhecido pela fé,
esperado e amado por si mesmo.
1841.
São três as virtudes teologais: fé, esperança
e caridade. Estas dão forma e vivificam
todas as virtudes morais.
1842. Pela
fé, cremos em Deus e em tudo quanto Ele nos revelou e a santa Igreja nos propõe
para acreditarmos.
1843. Pela
esperança, desejamos e esperamos de Deus, com firme confiança, a vida eterna e
as graças para a merecer.
1844. Pela
caridade, amamos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos,
por amor de A caridade é o “vínculo da perfeição” (Cl 3, 14) e a forma de todas
as virtudes.
1845. Os
sete dons do Espírito Santo, concedidos aos cristãos, são: sabedoria, entendimento,
conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor de Deus.