Catecismo da Igreja Católica 2683-2758

ARTIGO 3


GUIAS PARA A ORAÇÃO


A VIDA DE ORAÇÃO

 

UMA NUVEM DE TESTEMUNHAS

 

2683.      As testemunhas que nos precederam no Reino, especialmente aquelas que a Igreja reconhece como “santos", participam na tradição viva da oração pelo exemplo da sua vida, pela transmissão dos seus escritos e pela sua oração atual. Elas contemplam a Deus, o louvam e não cessam de tomar a seu cuidado os que deixaram na terra. Tendo entrado “na alegria” do seu Senhor, foram “estabelecidas à frente de muita coisa”. A sua intercessão o mais alto serviço que prestam ao desígnio de Deus. Podemos e devemos pedir-lhes que intercedam por nós e por todo o mundo.

 

2684.     Na comunhão dos santos desenvolveram-se, ao longo da história das Igrejas diversas espiritualidades. O carisma pessoal duma testemunha do amor de Deus pelos homens pode ter sido transmitido, como o espírito de Elias o foi a Eliseu e a João Batista, para que haja discípulos que partilhem desse espírito. Uma espiritualidade está também na confluência doutras correntes, litúrgicas e teológicas, e testemunha a inculturação da fé num determinado meio humano e na respectiva história. As espiritualidades cristãs participam na tradição viva da oração e são guias indispensáveis para os fiéis. Refletem, na sua rica diversidade, a pura e única luz do Espírito Santo.

“O Espírito é verdadeiramente o lugar dos santos. E o santo é, para o Espírito, um lugar próprio, pois se oferece para habitar com Deus e é chamado seu templo”.

 

SERVOS DA ORAÇÃO

 

2685.      A família cristã é o primeiro lugar da educação para a oração. Fundada no sacramento do Matrimônio, é “a igreja doméstica” na qual os filhos de Deus aprendem a orar “em igreja” e a perseverar na oração. Particularmente para os filhos pequenos, a oração familiar quotidiana é o primeiro testemunho da memória viva da Igreja pacientemente despertada pelo Espírito Santo.

 

2686.     Os ministros ordenados são também responsáveis pela formação na oração dos seus irmãos e irmãs em Cristo. Servos do Bom Pastor, são ordenados para guiar o povo de Deus até às fontes vivas da oração: a Palavra de Deus, a Liturgia, a vida teologal, o “hoje” de Deus nas situações concretas.

 

2687.     Muitos religiosos têm consagrado toda a sua vida à oração. Depois dos anacoretas do deserto do Egito, eremitas, monges e monjas têm dedicado o seu tempo ao louvor de Deus e à intercessão pelo seu povo. A vida consagrada não se mantém nem se propaga sem a oração; é uma das fontes vivas da contemplação e da vida espiritual na Igreja.

 

2688.     catequese das crianças, dos jovens e dos adultos visa a que a Palavra de Deus seja meditada na oração pessoal, atualizada na oração litúrgica e interiorizada em todo o tempo, para que dê fruto numa vida nova. A catequese é também o momento em que se pode purificar e educar a piedade popular. A memorização das orações fundamentais oferece um suporte indispensável à vida de oração, mas é importante que se faça saborear o seu sentido.

 

2689.     Grupos de oração e até “escolas de oração” são hoje um dos sinais e um dos estímulos da renovação da oração na Igreja, na condição de irem beber às fontes autênticas da oração cristã. A preocupação com a comunhão é sinal da verdadeira oração na Igreja.

 

2690.     O Espírito Santo concede a certos fiéis dons de sabedoria, de fé e de discernimento, em vista deste bem comum que é a oração (direção espiritual). Aqueles e aquelas que de tais dons são dotados, são verdadeiros ministros da tradição viva da oração: por isso que a alma que quer progredir na perfeição deve, segundo o conselho de São João da Cruz, “olhar em que mãos se põe, porque, qual o mestre, tal será o discípulo, e tal pai, tal filho”. E ainda: o guia, “além de sábio e discreto, é mister que seja experimentado” […]. Se o guia espiritual “não tem experiência do que é puro e verdadeiro espírito, não atinará a encaminhar nele, quando Deus dá, nem ainda o poderia entender”.

 

LUGARES FAVORÁVEIS À ORAÇÃO

 

2691.        A igreja, casa de Deus, é o lugar próprio da oração litúrgica para a comunidade paroquial. É também o lugar privilegiado para a adoração da presença real de Cristo no Santíssimo Sacramento. A escolha de um lugar favorável não é indiferente para a verdade da oração:

– para a oração pessoal, pode servir um “recanto de oração”, com a Sagrada Escritura e ícones (imagens) para aí se estar “no segredo” diante do Pai. Numa família cristã, este género de pequeno oratório favorece a oração em comum;

– nas regiões onde existem mosteiros, tais comunidades estão vocacionadas para favorecer a participação dos fiéis na Liturgia das Horas e permitir a solidão necessária para uma oração pessoal mais intensa;

– as peregrinações evocam a nossa marcha na terra para o céu. São tradicionalmente tempos fortes duma oração renovada. Os santuários são, para os peregrinos à procura das suas fontes vivas, lugares excepcionais para viver “em Igreja” as formas da oração cristã.

 

Resumindo:

2692.      Na sua oração, a Igreja peregrina associa-se à dos santos, cuja intercessão solicita.

 

2693.      As diferentes espiritualidades cristãs participam na tradição viva da oração e são guias preciosos da vida espiritual.

 

2694.     A família cristã é o primeiro lugar da educação para a oração.

 

2695.      Os ministros ordenados, a vida consagrada, a catequese, os grupos de oração, a “direção espiritual” prestam, na Igreja, ajuda d oração.

 

2696.     Os lugares mais favoráveis para a oração são: o oratório pessoal ou familiar, os mosteiros, os santuários de peregrinação e, sobretudo, a igreja, que é o lugar próprio da oração litúrgica para a comunidade paroquial e o lugar privilegiado da adoração eucarística.

 

CAPÍTULO III

A VIDA DE ORAÇÃO

2697.      A oração é a vida do coração novo. Deve animar-nos a todo o momento. Mas acontece que nos esquecemos d’Aquele que é a nossa vida e o nosso tudo. É por isso que os Padres espirituais, na sequência do Deuteronômio e dos profetas, insistem na oração como “lembrança de Deus”, frequente despertador da “memória do coração”. “Devemos lembrar-nos de Deus com mais frequência do que respiramos”. Mas não se pode orar “em todo o tempo”, se não se orar em certos momentos, voluntariamente: são os tempos fortes da oração cristã, em intensidade e duração.

 

2698.     A Tradição da Igreja propõe aos fiéis ritmos de oração destinados a alimentar a oração contínua. Alguns são quotidianos: a oração da manhã e da noite, antes e depois das refeições, a Liturgia das Horas. O Domingo, centrado na Eucaristia, é santificado principalmente pela oração. O ciclo do ano litúrgico e as suas grandes festas constituem os ritmos fundamentais da vida de oração dos cristãos.

 

2699.     O Senhor conduz cada pessoa pelos caminhos e da maneira que apraz. Por seu turno, cada fiel responde-Lhe conforme a determinação do seu coração e as expressões pessoais da sua oração. No entanto, a tradição cristã conservou três expressões principais da vida de oração: a oração vocal, a meditação e a contemplação. Têm um traço fundamental comum: o recolhimento do coração. Esta atenção em guardar a Palavra e permanecer na presença de Deus faz destas três expressões tempos fortes da vida de oração.

 

ARTIGO 1

AS EXPRESSÕES DA ORAÇÃO

                         I.          A oração vocal

 

2700.     Pela sua Palavra, Deus fala ao homem. É nas palavras, mentais ou vocais, que a nossa oração toma corpo. Mas o mais importante é a presença do coração Àquele a Quem falamos na oração. “Que a nossa oração seja atendida não depende da quantidade de palavras, mas do fervor das nossas almas”.

 

2701.       A oração vocal é um elemento indispensável da vida cristã. Aos discípulos, atraídos pela oração silenciosa do seu mestre, este ensina-lhes uma oração vocal: o “Pai-nosso”. Jesus não rezou apenas as orações litúrgicas da sinagoga: os evangelhos mostram-no a elevar a voz para exprimir a sua oração pessoal, desde a bênção exultante do Pai (3) até à desolação do Getsêmani.

 

2702.      A necessidade de associar os sentidos à oração interior corresponde a uma exigência da natureza humana. Nós somos corpo e espírito e experimentamos a necessidade de traduzir exteriormente os nossos sentimentos. Devemos rezar com todo o nosso ser para dar à nossa súplica a maior força possível.

 

2703.      Esta necessidade corresponde também a uma exigência divina. Deus procura quem O adore em espírito e verdade e, por conseguinte, uma oração que suba viva das profundezas da alma. Mas também quer a expressão exterior que associe o corpo à oração interior, porque ela lhe traz esta homenagem perfeita de tudo a quanto ele tem direito.

 

2704.     Porque exterior e tão plenamente humana, a oração vocal é, por excelência, a oração das multidões. Mas até a oração mais interior não pode prescindir da oração vocal. A oração torna-se interior na medida em que tomamos consciência d’Aquele “a Quem falamos” (5). Então, a oração vocal torna-se uma primeira forma da contemplação.

 

                      II.          A meditação

 

2705.      A meditação é sobretudo uma busca. O espírito procura compreender o porquê e o como da vida cristã, para aderir e corresponder ao que o Senhor lhe pede. Exige uma atenção difícil de disciplinar. Habitualmente, recorre-se à ajuda dum livro e os cristãos não têm falta deles: a Sagrada Escritura, em especial o Evangelho, os santos ícones (as imagens), os textos litúrgicos do dia ou do tempo, os escritos dos Padres espirituais, as obras de espiritualidade, o grande livro da criação e o da história, a página do “hoje” de Deus.

 

2706.     Meditar no que se lê leva a assimilá-lo, confrontando-o consigo mesmo. Abre-se aqui um outro livro: o da vida. Passa-se dos pensamentos à realidade. Segundo a medida da humildade e da fé, descobrem-se nela os movimentos que agitam o coração e é possível discerni-los. Trata-se de praticar a verdade para chegar à luz: “Senhor, que quereis que eu faça?”.

 

2707.     Os métodos de meditação são tão diversos como os mestres espirituais. Um cristão deve querer meditar com regularidade; doutro modo, torna-se semelhante aos três primeiros terrenos da parábola do semeador. Mas um método não passa de um guia; o importante é avançar, com o Espírito Santo, no caminho único da oração: Cristo Jesus.

 

2708.     A meditação põe em ação o pensamento, a imaginação, a emoção e o desejo. Esta mobilização é necessária para aprofundar as convicções da fé, suscitar a conversão do coração e fortalecer a vontade de seguir a Cristo. A oração cristã dedica-se, de preferência, a meditar nos “mistérios de Cristo”, como na “lectio divina” ou no rosário. Esta forma de reflexão orante é de grande valor, mas a oração cristã deve ir mais longe: até ao conhecimento amoroso do Senhor Jesus, até à união com Ele.

 

                   III.          A oração contemplativa

 

2709.     O que é a oração contemplativa? Santa Teresa responde: “A oração contemplativa, a meu ver, é apenas um relacionamento íntimo de amizade em que conversamos muitas vezes a sós com esse Deus por quem sabemos amados.”.

A oração contemplativa procura “Aquele que o meu coração ama” (Ct 1, 7), que Jesus, e n’Ele o Pai. Ele é procurado, porque desejá-Lo é sempre o princípio do amor, e é procurado na fé pura, esta fé que nos faz nascer d’Ele e viver n’Ele. Nesta modalidade de oração pode, ainda, meditar-se; todavia, o olhar vai todo para o Senhor.

 

2710.       A escolha do tempo e duração da oração contemplativa depende de uma vontade determinada, reveladora dos segredos do coração. Não se faz contemplação quando se tem tempo; ao invés, arranja-se tempo para estar com o Senhor, com a firme determinação de não retirar durante o caminho, sejam quais forem as provações e a aridez do encontro. Não se pode meditar sempre; mas pode-se entrar sempre em contemplação, independentemente das condições de saúde, trabalho ou afetividade. O coração é o lugar da busca e do encontro, na pobreza e na fé.

 

2711.          Entrar em oração é algo análoga ao que ocorre na Liturgia Eucarística: “reunir” o coração, recolher todo o nosso ser sob a moção do Espírito Santo, habitar na casa do Senhor que nós somos, despertar a fé para entrar na presença daquele que nos espera, fazer cair as nossas máscaras e voltar o nosso coração para o Senhor que nos ama, de modo a entregarmo-nos a Ele como uma oferenda a purificar e transformar.

 

2712.        A oração é a prece do filho de Deus, do pecador perdoado que consente em acolher o amor com que é amado e ao qual quer corresponder amando ainda mais. Mas ele sabe que o seu amor de correspondência é o que o Espírito Santo derrama no seu coração, porque tudo é graça da parte de Deus. A oração é a entrega humilde e pobre à vontade amorosa do Pai, em união cada vez mais profunda com o seu Filho muito amado.

 

2713.        Assim, a oração contemplativa é a expressão mais simples do mistério da oração. É um dom, uma graça; só pode ser acolhida na humildade e na pobreza. É uma relação de aliança estabelecida por Deus no fundo do nosso ser. A oração é comunhão: nela, a Santíssima Trindade conforma o homem, imagem de Deus, “à sua semelhança”.

 

2714.       A oração contemplativa é, também, por excelência, o tempo forte da oração. Nela, o Pai enche-nos de força, pelo Espírito Santo, para que se fortaleça em nós o homem interior, Cristo habite nos nossos corações pela fé e nós sejamos radicados e alicerçados no amor.

 

2715.        A contemplação é o olhar da fé, fixado em Jesus. “Eu olho para Ele e Ele olha para mim” – dizia, no tempo do seu santo Cura, um camponês d’Ars em oração diante do sacrário. Esta atenção a Ele é renúncia ao “eu”. O seu olhar purifica o coração. A luz do olhar de Jesus ilumina os olhos do nosso coração; ensina-nos a ver tudo à luz da sua verdade e da sua compaixão para com todos os homens. A contemplação dirige também o seu olhar para os mistérios da vida de Cristo. E assim aprende “o conhecimento íntimo do Senhor” para mais o amar e seguir.

 

2716.        A oração contemplativa é escuta da Palavra de Deus. Longe de ser passiva, esta escuta é obediência da fé, acolhimento incondicional do servo e adesão amorosa do filho. Participa do “sim” do Filho que se fez Servo e do “faça-se” da sua humilde serva.

 

2717.        A oração contemplativa é silêncio, este “símbolo do mundo que vem” ou “amor silencioso”. Na oração contemplativa, as palavras não são discursos, mas acendalhas que alimentam o fogo do amor. É neste silêncio, insuportável para o homem “exterior”, que o Pai nos diz o seu Verbo encarnado, sofredor, morto e ressuscitado e que o Espírito filial nos faz participar da oração de Jesus.

 

2718.        A oração contemplativa é união à oração de Cristo na medida em que nos faz participar no seu mistério. O mistério de Cristo é celebrado pela Igreja na Eucaristia e o Espírito Santo faz-nos viver dele na contemplação, para que seja manifestado pela caridade em ato.

 

2719.        A oração contemplativa é uma comunhão de amor, portadora de vida para a multidão, na medida em que é consentimento em permanecer na noite da fé. A noite pascal da ressurreição passa pela da agonia e do sepulcro. São estes três tempos fortes da “Hora” de Jesus, que o seu Espírito (e não a “carne”, que é “fraca”) nos faz viver na oração contemplativa. É preciso consentir em velar uma hora com Ele.

 

Resumindo:

 

2720.      A Igreja convida os fiéis para uma oração regular: orações quotidianas, Liturgia das Horas, Eucaristia dominical, festas do ano litúrgico.

 

2721.        A tradição cristã compreende três expressões principais da vida de oração: a oração vocal, a meditação e a contemplação. Têm em comum o recolhimento do coração.

 

2722.      A oração vocal, fundada na união do corpo e do espírito na natureza humana, associa o corpo à oração interior do coração, a exemplo de Cristo que orava ao Pai e ensinava o “Pai-nosso” aos seus discípulos.

 

2723.      A meditação é uma busca orante que põe em ação o pensamento, a imaginação, a emoção, o desejo. Tem por finalidade a apropriação crente do tema considerado, confrontado com a realidade da nossa vida.

 

2724.      A oração contemplativa é a expressão simples do mistério da oração. É um olhar de fé fixo em Jesus, uma escuta da Palavra de Deus, um amor silencioso. Realiza a união com a oração de Cristo, na medida em que nos faz participar no seu mistério.

 

ARTIGO 2

O COMBATE DA ORAÇÃO

2725.      A oração é um dom da graça e uma resposta decidida da nossa parte. Pressupõe sempre um esforço. Os grandes orantes da Antiga Aliança antes de Cristo, bem como a Mãe de Deus e os santos com Ele ensinam: a oração um combate. Contra quem? Contra nós mesmos e contra as astúcias do Tentador que tudo faz para desviar o homem da oração e da união com o seu Deus. Reza-se como se vive, porque se vive como se reza. Se não se quiser agir habitualmente segundo o Espírito de Cristo, também não se pode orar habitualmente em seu nome. O “combate espiritual” da vida nova do cristão é inseparável do combate da oração.

 

                         I.          As objeções à oração

 

2726.      No combate da oração, temos de enfrentar, em nós e à nossa volta, concepções erróneas da oração. Alguns veem nela uma simples operação psicológica; outros, um esforço de concentração para chegar ao vazio mental; outros ainda, reduzem-na a atitudes e palavras rituais. No inconsciente de muitos cristãos, rezar é uma ocupação incompatível com tudo o que têm de fazer: não têm tempo. Os que procuram a Deus na oração desanimam depressa, porque não sabem que a oração também vem do Espírito Santo e não somente de si próprios.

 

2727.      Temos de enfrentar também certas mentalidades “deste mundo” que nos invadem, se não estivermos atentos. Por exemplo: só é verdadeiro o que se pode verificar pela razão e pela ciência (mas orar é um mistério que ultrapassa a nossa consciência e o nosso inconsciente); os valores são a produção e o rendimento (mas a oração é improdutiva, logo inútil); o sensualismo e o conforto são os critérios do verdadeiro, do bem e do belo (mas a oração, “amor da beleza” – filocalia  deixa-se encantar pela glória do Deus vivo e verdadeiro); em reação ao ativismo, temos a oração apresentada como fuga do mundo (mas a oração cristã não é uma saída da história nem um divórcio da vida).

 

2728.      Finalmente, o nosso combate tem de enfrentar aquilo que sentimos como sendo os nossos fracassos na oração: desânimo na aridez, tristeza por não dar tudo ao Senhor, porque temos “muitos bens” decepção por não sermos atendidos segundo a nossa própria vontade, o nosso orgulho ferido que se endurece perante a nossa indignidade de pecadores, alergia à gratuitidade da oração, etc. A conclusão é sempre a mesma: de que serve orar? Para vencer tais obstáculos, é preciso combater com humildade, confiança e perseverança.

 

                      II.          A humilde vigilância do coração

 

DIANTE DAS DIFICULDADES DA ORAÇÃO

 

2729.      A dificuldade habitual da nossa oração é a distração. Pode ter por objeto as palavras e o seu sentido, na oração vocal; mais profundamente, pode incidir sobre Aquele a Quem rezamos, na oração vocal (litúrgica ou pessoal), na meditação e na contemplação. Partir à caça das distrações seria cair nas suas ciladas; basta regressar ao nosso coração: uma distração revela-nos aquilo a que estamos apegados e esta humilde tomada de consciência diante do Senhor deve despertar o nosso amor preferencial por Ele, oferecendo-Lhe resolutamente o nosso coração para que Ele o purifique. É aí que se situa o combate: na escolha do Senhor a quem servir.

 

2730.      Positivamente, o combate contra o nosso eu, possessivo e dominador, consiste na vigilância, a sobriedade do coração. Quando Jesus insiste na vigilância, esta refere-se sempre a Ele, à sua vinda, no último dia e em cada dia: “hoje”. O Esposo chega a meio da noite. A luz que não se deve extinguir é a da fé: “Diz-me o coração: “Procura a sua face”” (Sl 27, 8).

 

2731.        Outra dificuldade, especialmente para os que querem rezar com sinceridade, é a aridez. Faz parte da oração em que o coração está seco, sem gosto pelos pensamentos, lembranças e sentimentos, mesmo espirituais. É o momento da fé pura, que se aguenta fielmente ao lado de Jesus na agonia e no sepulcro. “Se o grão de trigo morrer, dará muito fruto” (Jo 12, 24). Se a aridez for devida à falta de raiz, porque a Palavra ter caído em terreno pedregoso, o combate entra no campo da conversão.

 

DIANTE DAS TENTAÇÕES NA ORAÇÃO

 

2732.      A tentação mais comum e a mais oculta é a nossa falta de fé. Exprime-se menos por uma incredulidade declarada do que por uma preferência de facto. Quando começamos a orar, mil trabalhos e preocupações, julgados urgentes, apresentam-se como prioritários. É mais uma vez o momento da verdade do coração e do seu amor preferencial. Umas vezes, voltamo-nos para o Senhor como nosso último recurso: mas será que acreditamos mesmo n’Ele? Outras vezes, tomamos o Senhor como aliado, mas conservamos o coração cheio de presunção. Em todos os casos, a nossa falta de fé revela que ainda não temos as disposições de um coração humilde: “Sem Mim, nada podereis fazer” (Jo 15, 5).

 

2733.      Outra tentação, à qual a presunção abre a porta, é a acédia. Os Padres espirituais entendem por ela uma forma de depressão devida ao relaxamento da ascese, à diminuição da vigilância, à negligência do coração. “O espírito está decidido, mas a carne é fraca” (Mt 26, 41). Quanto de mais alto se cai, mais magoado se fica. O desânimo doloroso é o reverso da presunção. Quem humilde não se admira da sua miséria; ela leva-o a ter mais confiança e a manter-se firme na constância.

 

                   III.          A confiança filial

 

2734.      A confiança filial é posta à prova – e prova-se a si mesma – na tribulação. A principal dificuldade diz respeito à oração de petição, na intercessão por si ou pelos outros. Alguns deixam mesmo de orar porque, segundo pensam, o seu pedido não é atendido. Aqui, duas questões se põem: Por que é que pensamos que o nosso pedido não é atendido? E como é que a nossa oração é atendida, e “eficaz”?

 

PORQUE NOS LAMENTAR POR NÃO SERMOS ATENDIDOS?

 

2735.      Antes de mais, uma constatação deveria surpreender-nos. É que, quando louvamos a Deus ou lhe damos graças pelos seus benefícios em geral, não nos importamos nada com saber se a nossa oração Lhe é agradável, ao passo que exigimos ver o resultado da nossa petição. Qual é, então, a imagem de Deus que motiva a nossa oração: um meio a utilizar ou o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo?

 

2736.      Será que estamos convencidos de que “não sabemos o que pedir, para rezar como devemos” (Rm 8, 26)? Será que pedimos a Deus “os bens convenientes”? O nosso Pai sabe muito bem do que precisamos, antes que peçamos, mas espera o nosso pedido, porque a dignidade dos seus filhos está na sua liberdade. Devemos, pois, orar com o seu Espírito de liberdade para podermos conhecer de verdade qual é o seu desejo.

 

2737.      “Não tendes, porque não pedis. Pedis e não recebeis, porque pedis mal, pois o que pedis é para satisfazer as vossas paixões” (Tg 4, 2-3). Se pedirmos com um coração dividido, “adúltero” (24), Deus não pode atender-nos, pois quer o nosso bem, a nossa vida. “Ou pensais que a Escritura diz em vão: “o Espírito que habita em nós ama-nos com ciúme”?” (Tg 4, 5). O nosso Deus é “ciumento” de nós e isso é sinal da verdade do seu amor. Entremos no desejo do seu Espírito e seremos atendidos:

“Não te aflijas, se não recebes logo de Deus o que Lhe pedes: é que Ele quer beneficiar-te ainda mais pela tua perseverança em permanecer com Ele na oração”.

Ele quer “que o nosso desejo se exercite na oração dilatando-nos, de modo a termos capacidade para receber o que Ele prepara para nos dar”.

 

DE QUE MANEIRA É EFICAZ NOSSA ORAÇÃO?

 

2738.      A revelação da oração na economia da salvação ensina-nos que a fé se apoia na ação de Deus na história. A confiança filial é suscitada pela sua ação por excelência: a paixão e ressurreição do seu Filho. A oração cristã é cooperação com a sua providência, com o seu desígnio de amor para com os homens.

 

2739.      Em São Paulo, esta confiança é audaciosa, apoiando-se na oração do Espírito em nós e no amor fiel do Pai que nos deu o seu Filho Único. A transformação do coração que ora é a primeira resposta ao nosso pedido.

 

2740.     A oração de Jesus faz da oração cristã uma petição eficaz. Jesus é o modelo da oração cristã; Ele ora em nós e conosco. Uma vez que o coração do Filho não procura senão o que agrada ao Pai, como poderia o dos filhos adoptivos apegar-se mais aos dons que ao Doador?

 

2741.       Jesus também ora por nós, em nosso lugar e em nosso favor. Todos os nossos pedidos foram reunidos, de uma vez por todas, no seu brado sobre a cruz e atendidos pelo Pai na sua ressurreição; e é por isso que Ele não cessa de interceder por nós junto do Pai. Se a nossa oração estiver resolutamente unida à de Jesus na confiança e na audácia filial, obteremos tudo o que pedirmos em seu nome e muito mais do que isto ou aquilo: o próprio Espírito Santo que inclui todos os dons.

 

                  IV.          Perseverar no amor

 

2742.      “Orai sem cessar” (1 Ts 5, 17), “dai sempre graças por tudo a Deus Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (Ef 5, 20), “servindo-vos de toda a espécie de orações e preces, orai em todo o tempo no Espírito Santo; e, para isso, vigiai com toda a perseverança e com preces por todos os santos” (Ef 6, 18). “Não nos foi mandado que trabalhemos, velemos e jejuemos constantemente, mas temos a lei de orar sem cessar” Este fervor incansável só pode vir do amor. Contra a nossa lentidão e preguiça, o combate da oração é o do amor humilde, confiante e perseverante. Este amor abre os nossos corações a três evidências de fé, luminosas e vivificantes.

 

2743.      Orar é sempre possível: O tempo do cristão é o de Cristo Ressuscitado, que está “conosco todos os dias” (Mt 28, 20), sejam quais forem as tempestades. O nosso tempo está na mão de Deus:

“É possível, mesmo no mercado ou durante um passeio solitário, fazer oração frequente e fervorosa; sentados na vossa loja, a tratar de compras e vendas, até mesmo a cozinhar”.

 

2744.     Orar é uma necessidade vital. A demonstração do contrário não é menos convincente: se não nos deixarmos conduzir pelo Espírito Santo, recairemos na escravidão do pecado. Ora, como pode o Espírito Santo ser a “nossa vida” se o nosso coração estiver longe d’Ele?

“Nada iguala o valor da oração; ela torna possível o impossível, fácil o difícil. […] É impossível […] que o homem que ora caia no pecado” (34). “Quem reza salva-se, de certeza; quem não reza condena-se, de certeza””.

 

2745.      Oração e vida cristã são inseparáveis, porque se trata do mesmo amor e da mesma renúncia que procede do amor; da mesma conformidade filial e amorosa com o desígnio de amor do Pai; da mesma união transformante no Espírito Santo que nos conforma sempre mais com Cristo Jesus; do mesmo amor para com todos os homens, desse amor com que Jesus nos amou. “Tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, ele vos dará. O que vos mando é que vos ameis uns aos outros” (Jo 15, 16-17).

“Ora sem cessar, aquele que une a oração às obras e as obras à oração. Só assim é que podemos considerar como realizável o preceito de orar incessantemente”.

 

                     V.          A oração da Hora de Jesus

 

2746.     Ao chegar a sua “Hora”, Jesus ora ao Pai. A sua oração, a mais longa que nos é transmitida pelo Evangelho, abraça toda a economia da criação e da salvação, bem como a sua morte e ressurreição. A oração da “Hora” de Jesus continua sempre sua, tal como a sua Páscoa, acontecida “uma vez por todas”, continua presente na liturgia da sua Igreja.

 

2747.     A tradição cristã chama-lhe, a justo título, a oração “sacerdotal” de Jesus. Ela é, de facto, a oração do nosso Sumo-Sacerdote, inseparável do seu sacrifício, da sua “passagem” (páscoa) deste mundo para o Pai, em que é inteiramente “consagrado” ao Pai.

 

2748.     Nesta oração pascal, sacrificial, tudo está “recapitulado” nele: Deus e o mundo, o Verbo e a carne, a vida eterna e o tempo, o amor que se entrega e o pecado que o trai, os discípulos presentes e os que nele crerão nele pela palavra, a humilhação e a glória. É a Oração da Unidade.

 

2749.     Jesus cumpriu perfeitamente a obra do Pai e a sua oração, como o seu sacrifício estende-se até à consumação do tempo. A oração da “Hora” preenche os últimos tempos e leva-os à sua consumação. Jesus, o Filho a Quem o Pai tudo deu, entrega-Se todo ao Pai; e, ao mesmo tempo, exprime-Se com uma liberdade soberana, segundo o poder que o Pai Lhe deu sobre toda a carne. O Filho, que Se fez Servo, é o Senhor, o “Pantocrator” (o Todo Poderoso). O nosso Sumo Sacerdote que ora por nós é também Aquele que em nós ora e o Deus que nos atende.

 

2750.      É entrando no santo nome do Senhor Jesus que podemos acolher, desde dentro, a oração que Ele nos ensina: “Pai nosso!”. A sua oração sacerdotal inspira, a partir de dentro, as grandes petições do Pai-nosso: a preocupação com o nome do Pai, a paixão pelo seu Reino (a glória), o cumprimento da vontade do Pai, do seu desígnio de salvação e a libertação do mal.

 

2751.        Finalmente, é nesta oração que Jesus nos revela e nos dá o “conhecimento” indissociável do Pai e do Filho, que é o próprio mistério da vida de oração.

 

Resumindo:

 

2752.      A oração pressupõe esforço e luta contra nós mesmos e contra as ciladas do Tentador. O combate da oração é inseparável do “combate espiritual” necessário para agir habitualmente segundo o Espírito de Cristo: ora-se como se vive, porque se vive como se ora.

 

2753.      No combate da oração, devemos enfrentar concepções erróneas, diversas correntes de mentalidades e a experiência dos nossos fracassos. A estas tentações, que lançam a dúvida sobre a utilidade ou até mesmo a possibilidade da oração, convém responder com humildade, confiança e perseverança.

 

2754.      As principais dificuldades no exercício da oração são a distração e a aridez. O remédio está na fé, na conversão e na vigilância do coração.

 

2755.      Duas tentações frequentes ameaçam a oração: a falta de fé e a acédia, que é uma espécie de depressão devida ao relaxamento da ascese e que leva ao desânimo.

 

2756.      A confiança filial é posta à prova quando temos a sensação de nem sempre ser atendidos. O Evangelho convida-nos a interrogarmo-nos sobre a conformidade da nossa oração com o desejo do Espírito.

 

2757.      “Orai sem cessar” (1 Ts 5, 17). Orar é sempre possível. É, até uma necessidade vital. Oração e vida cristã são inseparáveis.

 

2758.      A oração da “Hora” de Jesus, justamente chamada “oração sacerdotal”, recapitula toda a economia da criação e da salvação. É ela que inspira as grandes petições do “Pai-nosso”.

 

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