CAPÍTULO III
A SALVAÇÃO DE DEUS: A LEI E A GRAÇA
1949. Chamado
à felicidade, mas ferido pelo pecado, o homem tem necessidade da salvação de
Deus. O auxílio divino é-lhe dado em Cristo, pela lei que o dirige e na graça
que o ampara:
“Trabalhai com
temor e tremor na vossa salvação: porque é Deus que opera em vós o querer e o
agir, segundo os seus desígnios” (Fl 2, 12-13).
A
LEI MORAL
1950. A
lei moral é obra da Sabedoria divina. Podemos defini-la, em sentido bíblico,
como uma instrução paterna, uma pedagogia de Deus. Ela prescreve ao homem os
caminhos, as regras de procedimento que o levam à felicidade prometida e lhe
proíbe os caminhos do mal, que desviam de Deus e do seu amor. E, ao mesmo
tempo, firme nos seus preceitos e amável nas suas promessas.
1951.
A lei é uma regra de procedimento
emanada da autoridade competente em ordem ao bem comum. A lei moral pressupõe a
ordem racional estabelecida entre as criaturas, para seu bem e em vista do seu
fim, pelo poder, sabedoria e bondade do Criador. Toda a lei encontra na Lei
eterna a sua verdade primeira e última. A lei é declarada e estabelecida pela
razão como uma participação na providência do Deus vivo, Criador e Redentor de
todos. “Esta ordenação da razão, eis o que se chama a lei”.
“Entre todos os
seres animados, o homem é o único que pode gloriar -se de ter recebido de Deus
uma lei: animal dotado de razão, capaz de compreender e de discernir, ele
regulará o seu procedimento dispondo da sua liberdade e da sua razão, na
submissão Àquele que tudo lhe submeteu”.
1952.
As expressões da lei moral são
diversas, mas todas coordenadas entre si: a lei eterna, fonte em Deus de todas
as leis; a lei natural; a lei revelada, compreendendo a Lei antiga e a Lei nova
ou evangélica: por fim, as leis civis e eclesiásticas.
1953.
A lei moral encontra em Cristo a sua
plenitude e unidade. Jesus Cristo é, em pessoa, o caminho da perfeição. Ele é o
fim da lei, porque só Ele ensina e confere a justiça de Deus: “O fim da Lei é
Cristo, para a justificação de todo o crente” (Rm 10, 4).
I.
A lei moral natural
1954. O
homem participa na sabedoria e na bondade do Criador, que lhe confere o domínio
dos seus atos e a capacidade de se governar em ordem à verdade e ao bem. A lei
natural exprime o sentido moral original que permite ao homem discernir, pela razão,
o bem e o mal, a verdade e a mentira:
“A lei natural […]
está escrita e gravada na alma de todos e de cada um dos homens, porque não é
senão a razão humana ordenando fazer o bem e proibindo pecar… Mas este ditame
da razão humana não poderia ter força de lei, se não fosse a voz e a intérprete
duma razão superior, à qual o nosso espírito e a nossa liberdade devem estar
sujeitos”.
1955.
A lei “divina e natural” mostra ao
homem o caminho a seguir para praticar o bem e atingir o seu fim. A lei natural
enuncia os preceitos primários e essenciais que regem a vida moral. Tem como
fulcro a aspiração e a submissão a Deus, fonte e juiz de todo o bem, assim como
o sentido do outro como igual a si mesmo. Quanto aos seus preceitos principais,
está expressa no Decálogo. Esta lei é chamada natural, não em relação à
natureza dos seres irracionais, mas porque a razão que a promulga é própria da
natureza humana:
“Onde estão, pois,
inscritas [estas regras] senão no livro daquela luz que se chama a verdade? É
lá que está escrita toda a lei justa, e é de lá que ela passa para o coração do
homem que pratica a justiça; não que imigre para ele, mas porque nele imprime a
sua marca, à maneira de um selo que do sinete passa para a cera, sem, contudo,
deixar o sinete”.
A lei natural “não é senão a luz da
inteligência posta em nós por Deus; por ela, nós conhecemos o que se deve fazer
e o que se deve evitar. Esta luz ou esta lei, deu-a Deus ao homem na criação”.
1956.
Presente no coração de cada homem e
estabelecida pela razão, a lei natural é universal nos seus
preceitos, e a sua autoridade estende-se a todos os homens. Ela exprime a
dignidade da pessoa e determina a base dos seus deveres e direitos
fundamentais:
“Existe, sem
dúvida, uma verdadeira lei, que é a reta razão; ela é conforme natureza, comum
a todos os homens; é imutável e eterna; as suas ordens apelam para o dever; as
suas proibições desviam da falta. […] É um sacrilégio substituí-la por uma lei
contrária: e é interdito deixar de cumprir uma só que seja das suas disposições;
quanto a ab-rogá-la inteiramente, ninguém o pode fazer”.
1957.
A aplicação da lei natural varia
muito; pode requerer uma reflexão adaptada à multiplicidade das condições de
vida, segundo os lugares, as épocas e as circunstâncias. Todavia, na diversidade
das culturas, a lei natural permanece como regra a unir os homens entre si,
impondo-lhes, para além das diferenças inevitáveis, princípios comuns.
1958. A
lei natural é imutável e permanente através das variações da
história. Subsiste sob o fluxo das ideias e dos costumes e está na base do
respectivo progresso. As regras que a traduzem permanecem substancialmente
válidas. Mesmo que se lhe neguem até os princípios, não é possível destruí-la
nem tirá-la do coração do homem; ela ressurge sempre na vida dos indivíduos e
das sociedades:
“Não há dúvida de
que o roubo é punido pela vossa Lei, Senhor, e pela lei que está escrita no
coração do homem e que nem a própria iniquidade consegue apagar”.
1959.
Obra excelente do Criador, a lei
natural fornece os fundamentos sólidos sobre os quais o homem pode construir o
edifício das regras morais que orientarão as suas opções. Também nela assenta a
base moral indispensável para a construção da comunidade dos homens. Enfim,
proporciona a base necessária à lei civil, que a ela se liga, quer por uma
reflexão que dos seus princípios tira as conclusões, quer por adições de
natureza positiva e jurídica.
1960. Os
preceitos da lei natural não são por todos recebidos de maneira clara e
imediata. Na situação atual, a graça e a Revelação são necessárias ao homem
pecador para que as verdades religiosas e morais possam ser conhecidas, “por
todos e sem dificuldade, com firme certeza e sem mistura de erro”. A lei
natural proporciona à lei revelada e à graça uma base preparada por Deus e
concedida por obra do Espírito.
II.
A Lei antiga
1961.
Deus, nosso Criador e nosso Redentor,
escolheu Israel como seu povo e revelou-lhe a sua Lei, preparando assim a vinda
de Cristo. A Lei de Moisés exprime muitas verdades naturalmente acessíveis à
razão. Estas encontram-se declaradas e autenticadas no âmago da aliança da
salvação.
1962.
A Lei antiga é o primeiro estádio da
lei revelada. As suas prescrições morais estão compendiadas nos Dez
Mandamentos. Os preceitos do Decálogo assentam os alicerces da vocação do
homem, feito à imagem de Deus: proíbem o que é contrário ao amor de Deus e do
próximo e prescrevem o que lhe é essencial. O Decálogo é uma luz oferecida à
consciência de todo o homem, para lhe manifestar o apelo e os caminhos de Deus
e o proteger contra o mal:
Deus “escreveu nas tábuas da Lei o
que os homens não fiam nos seus corações”.
1963.
Segundo a tradição cristã, a Lei
santa, espiritual e boa, ainda imperfeita. Como um pedagogo ela mostra o que se
deve fazer; mas, por si, não dá a força, a graça do Espírito para ser cumprida.
Por causa do pecado, que ela não pode anular, não deixa de ser uma lei de
escravidão.
Segundo São Paulo,
ela tem por função principalmente denunciar e manifestar o pecado que
constitui uma “lei de concupiscência” no coração do homem. No entanto, a Lei
permanece como a primeira etapa no caminho do Reino. Prepara e dispõe o povo
eleito e cada cristão para a conversão e para a fé em Deus salvador.
Proporciona um ensinamento que subsiste para sempre, como Palavra de Deus.
1964. A
Lei antiga é uma preparação para o Evangelho. “A Lei é
profecia e pedagogia das realidades futuras”. Ela profetiza e preanuncia a obra
de libertação do pecado, que será realizada por Cristo; e fornece ao Novo
Testamento imagens, “tipos” e símbolos para exprimir a vida segundo o Espírito.
Finalmente, a Lei completa-se pelo ensinamento dos Livros Sapienciais e dos
Profetas, que a orientam para a Nova Aliança e para o Reino dos céus.
Houve […] na vigência
da Antiga Aliança, pessoas que possuíam a caridade e a graça do Espírito Santo,
e aspiravam acima de tudo às promessas espirituais e eternas, sob este aspecto,
já pertenciam à nova Lei. Inversamente, existem na nova Aliança homens carnais,
ainda distantes da perfeição da Nova Lei. Para os incitar à prática da virtude,
tem sido necessário, mesmo na Nova Aliança, o temor do castigo e certas
promessas temporais. Em todo o caso, a Lei antiga, embora prescrevesse a
caridade, não dava o Espírito Santo, pelo qual “a caridade se difunde nos
nossos corações” (Rm 5, 5)”.
III.
A nova Lei ou Lei evangélica
1965.
A Lei nova ou Lei evangélica é a
perfeição , na terra, da Lei divina, natural e revelada. É obra de Cristo e tem
a sua expressão, de modo particular, no sermão da montanha. É também obra do
Espírito Santo e, por Ele, torna-se a lei interior da caridade: “Estabelecerei
com a casa de Israel uma aliança nova […] porei minhas leis em sua mente e as
gravarei no seu coração. Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo” (Heb 8,
8-10).
1966.
A Lei nova é a graça do
Espírito Santo, dada aos fiéis pela fé em Cristo. Opera pela caridade
e serve-se do sermão do Senhor para nos ensinar o que se deve fazer, e dos
sacramentos para nos comunicar a graça de o fazer:
Aquele que quiser
meditar com piedade e perspicácia o sermão que nosso Senhor pronunciou na
montanha, tal como o lemos no Evangelho de São Mateus, nele encontrará, sem
dúvida alguma, a carta perfeita da vida cristã […]. Esse sermão encerra todos
os preceitos próprios para guiar a vida cristã”.
1967.
A Lei evangélica “cumpre”, apura,
ultrapassa e leva à perfeição a Lei antiga. Nas “bem-aventuranças”, ela cumpre
as promessas divinas, elevando-as e ordenando-as para o “Reino dos
céus”. Dirige-se àqueles que estão dispostos a acolher com fé esta esperança
nova: os pobres, os humildes, os aflitos, os corações puros, os perseguidos por
causa de Cristo, traçando assim os surpreendentes caminhos do Reino.
1968. A
Lei evangélica dá cumprimento aos mandamentos da Lei. O sermão
do Senhor, longe de abolir ou desvalorizar as prescrições morais da Lei antiga,
tira deles as virtualidades ocultas, fazendo surgir novas exigências: revela
toda a verdade divina e humana que elas contêm. Não acrescenta preceitos
externos novos: mas chega a reformar a raiz dos atos, o coração, onde o homem
escolhe entre o puro e o impuro, onde se formam a fé, a esperança e a caridade
e, com elas, as outras virtudes. Assim, o Evangelho leva a Lei à sua plenitude,
pela imitação da perfeição do Pai celeste, pelo perdão dos inimigos e pela
oração pelos perseguidores, à maneira da generosidade divina.
1969. A
Lei nova pratica os atos da religião: a esmola, a oração, o
jejum, ordenando-os para “o Pai que vê no segredo”, ao contrário do desejo “de
ser visto pelos homens”. A sua oração é o “Pai Nosso”.
1970. A
Lei evangélica implica a escolha decisiva entre “os dois caminhos” e a passagem
à prática das palavras do Senhor; resume-se na regra de ouro: “Tudo
quanto quiserdes que os homens vos façam, fazei-o, de igual modo, vós também,
pois nisso consiste a Lei e os Profetas” (Mt 7, 12).
Toda a Lei evangélica se apoia
no “mandamento novo” de Jesus, de nos amarmos uns aos outros
como Ele nos amou.
1971.
Ao sermão do Senhor convém
juntar a catequese moral dos ensinamentos
apostólicos. como Rm 12-15; 1 Cor 12-13; Cl 3-4; Ef 4-5;
etc… Esta doutrina transmite o ensinamento do Senhor com a autoridade dos
Apóstolos, sobretudo pela exposição das virtudes que dimanam da fé em Cristo e
que são animadas pela caridade, o principal dom do Espírito Santo. “Seja a
vossa caridade sem fingimento […]. Amai-vos uns aos outros com amor fraterno
[…]. Sede alegres na esperança, pacientes na tribulação, perseverantes na
oração, acudindo com a vossa parte às necessidades dos santos, procurando o
ensejo de exercer a hospitalidade (Rm 12, 9-12). Esta
catequese ensina-nos também a tratar os casos de consciência à luz da nossa
relação com Cristo e com a Igreja.
1972.
A Lei nova é chamada Lei do amor,
porque faz agir mais pelo amor infundido pelo Espírito Santo do que pelo temor:
Lei da graça, porque confere a força da graça para agir pela fé e pelos
sacramentos; Lei de liberdade porque nos liberta das observâncias
rituais e jurídicas da Lei antiga, nos inclina a agir espontaneamente sob o
impulso da caridade e, finalmente, nos faz passar da condição do escravo “que
ignora o que faz o seu senhor”, para a do amigo de Cristo: “porque vos dei a
conhecer tudo o que ouvi do meu Pai” (Jo 15, 15); ou ainda para a
condição de filho herdeiro.
1973.
Além dos seus preceitos, a Lei nova
inclui também os conselhos evangélicos. A
distinção tradicional entre os mandamentos de Deus e os conselhos evangélicos
estabelece-se por referência à caridade, perfeição da vida cristã. Os preceitos
destinam-se a afastar tudo o que é incompatível com a caridade. Os conselhos
têm por fim afastar o que, mesmo sem lhe ser contrário, pode constituir impedimento
à expansão da caridade.
1974. Os
conselhos evangélicos manifestam a plenitude viva da caridade, sempre
insatisfeita por não dar mais. Atestam o seu ímpeto e solicitam a nossa
prontidão espiritual. A perfeição da Lei nova consiste essencialmente nos
preceitos do amor de Deus e do próximo. Os conselhos indicam caminhos mais
diretos, meios mais adequados, e são praticáveis segundo a vocação de cada um:
“Deus não quer que
cada um observe todos os conselhos, mas somente os que são convenientes,
segundo a diversidade das pessoas, dos tempos, das ocasiões e das forças,
consoante a caridade o requer; pois é ela que, como rainha de todas as
virtudes, de todos os mandamentos, de todos os conselhos, em suma, de todas as
leis e de todas as ações cristãs, lhes dá a todos e a todas o lugar, a ordem, o
tempo e o valor”.
Resumindo:
1975.
Segundo a Escritura, a Lei é uma
instrução paterna de Deus, que prescreve
ao homem os caminhos que levam à felicidade prometida, e proíbe os caminhos do
mal.
1976.
“A lei é uma ordenação da razão para
o bem comum, promulgada por aquele que tem o encargo da
comunidade”.
1977.
Cristo é o fim da Lei. Só
Ele ensina e concede a justiça de Deus.
1978. A
lei natural é uma participação na sabedoria e bondade de Deus pelo homem,
formado à imagem do seu Criador Ela exprime a dignidade da pessoa humana e
constitui a base dos seus direitos e deveres fundamentais.
1979.
A lei natural é imutável, permanente
através da história. As regras que a
traduzem permanecem substancialmente válidas. É a base necessária para a
fixação das regras morais e da lei civil.
1980. A
Lei antiga é o primeiro estádio da Lei revelada. As suas prescrições morais
estão compendiadas nos Dez Mandamentos.
1981.
A Lei de Moisés contém muitas
verdades naturalmente acessíveis à razão.
Deus revelou-as, porque os homens não as liam no seu coração.
1982.
A Lei antiga é uma preparação para o
Evangelho.
1983. A
nova Lei é a graça do Espírito Santo, recebida pela fé em Cristo, operando
pela caridade. Está expressa sobretudo no sermão do Senhor na montanha e
utiliza os sacramentos para nos comunicar a graça.
1984. A
Lei evangélica cumpre, ultrapassa e aperfeiçoa a Lei antiga: as suas promessas
pelas bem-aventuranças do Reino dos céus; os seus mandamentos, reformando a
raiz dos atos, o coração.
1985. A
nova Lei é uma lei de amor; uma lei de graça, uma lei de liberdade.
1986. Além
dos seus preceitos, a nova Lei comporta os conselhos evangélicos.
“A santidade da Igreja é especialmente favorecida pelos vários conselhos que o
Senhor propõe no Evangelho aos seus discípulos”.
GRAÇA
E JUSTIFICAÇÃO
I.
A justificação
1987. A
graça do Espírito Santo tem o poder de nos justificar, isto é, de nos lavar dos
nossos pecados e de nos comunicar “a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo” e
pelo Batismo:
“Se morremos com
Cristo, acreditamos que também com Ele viveremos, sabendo que, uma vez
ressuscitado dos mortos, Cristo já não morre: a morte já não tem domínio sobre
Ele. Porque, na morte que sofreu, Cristo morreu para o pecado de uma vez para
sempre: mas a sua vida é uma vida para Deus. Assim vós também, considerai-vos
mortos para o pecado e vivos para Deus, em Cristo Jesus” (Rm 6,
8- 11).
1988. Pelo
poder do Espírito Santo, nós tomamos parte na paixão de Cristo, morrendo para o
pecado, e na sua ressurreição, nascendo para uma vida nova. Somos os membros do
seu corpo, que é a Igreja, os sarmentos enxertados na videira, que é Ele
próprio:
“É pelo Espírito
que nós temos parte em Deus. […] Pela participação no Espírito, tornamo-nos
participantes da natureza divina […]. É por isso que aqueles em quem habita o
Espírito são divinizados”.
1989. A
primeira obra da graça do Espírito Santo é a conversão, que
opera a justificação, segundo a mensagem de Jesus no princípio do Evangelho: “Convertei-vos,
que está perto o Reino dos céus” (Mt 4, 17). Sob a moção da graça,
o homem volta-se para Deus e desvia-se do pecado, acolhendo assim o perdão e a
justiça do Alto. “A justificação comporta, portanto, a remissão dos pecados, a
santificação e a renovação do homem interior”.
1990. A
justificação desliga o homem do pecado, que está em contradição
com o amor de Deus, e purifica-lhe o coração. A justificação continua a
iniciativa da misericórdia de Deus, que oferece o perdão; reconcilia o homem
com Deus; liberta-o da escravidão do pecado e cura-o.
1991.
A justificação é, ao mesmo
tempo, acolhimento da justiça de Deus pela fé em
Jesus Cristo. Justiça designa, aqui, a retidão do amor divino.
Com a justificação,
são difundidas nos nossos corações a fé, a esperança e a caridade, e é-nos
concedida a obediência à vontade divina.
1992.
A justificação foi-nos merecida
pela paixão de Cristo, que na cruz Se ofereceu como hóstia viva, santa
e agradável a Deus, e cujo sangue se tornou instrumento de propiciação pelos
pecados de todos os homens. A justificação concedida pelo Baptismo, sacramento
da fé. Conforma-nos com a justiça de Deus que nos torna interiormente justos
pelo poder da sua misericórdia. E tem por fim a glória de Deus e de Cristo, e o
dom da vida eterna:
“Mas agora, foi sem
a Lei que se manifestou a justiça de Deus, atestada pela Lei e pelos Profetas:
a justiça que vem para todos os crentes, mediante a fé em Jesus Cristo. É que
não há diferença alguma: todos pecaram e estão privados da glória de Deus. Sem o
merecerem, são justificados pela sua graça, em virtude da redenção realizada em
Cristo Jesus. Deus ofereceu-o para, nele, pelo seu sangue, se realizar a
expiação que a tua mediante a fé: foi assim que Ele mostrou a sua justiça, ao
perdoar os pecados cometidos outrora, no tempo da divina paciência. Deus mostra
assim a sua justiça no tempo presente, porque Ele é justo e justifica quem tem
fé em Jesus” (Rm 3, 21-26).
1993.
A justificação estabelece a
colaboração entre a graça de Deus e a liberdade do homem. Do
lado do homem, exprime-se no assentimento da fé à Palavra de Deus que convida à
conversão, e na cooperação da caridade com o impulso do Espírito Santo que se
lhe adianta e o guarda:
“Quando Deus move o
coração do homem pela iluminação do Espírito Santo o homem não fica sem fazer
nada ao receber esta inspiração, que, aliás, pode rejeitar: no entanto, também
não pode, sem a graça de Deus, caminhar, por sua livre vontade, para a justiça
na sua presença”.
1994. A
justificação é a obra mais excelente do amor de Deus manifestado
em Cristo Jesus e concedido pelo Espírito Santo. Santo Agostinho pensa que “a
justificação do ímpio é obra maior que a criação do céu e da terra”; porque “o
céu e a terra passarão, ao passo que a justificação e a salvação dos eleitos
permanecerão”. Pensa mesmo que a justificação dos pecadores é mais importante
que a criação dos anjos em justiça, pelo tacto de testemunhar uma maior
misericórdia.
1995.
O Espírito Santo é o mestre interior.
Fazendo nascer o “homem interior” a justificação implica a santificação de
todo o ser:
“Pois, como
pusestes os vossos membros ao serviço da impureza e do mal para cometer a
iniquidade, assim ponde agora os vossos membros ao serviço da justiça para
chegar à santidade. […] Mas agora, libertos do pecado e feitos servos de Deus,
tendes por fruto a santidade: e o termo é a vida eterna” (Rm 6,
19-22).
II.
A graça
1996. A
nossa justificação vem da graça de Deus. A graça é o favor, o socorro
gratuito que Deus nos dá, a fim de respondermos ao seu chamamento para
nos tornarmos filhos de Deus filhos adoptivos participantes da natureza divina e
da vida eterna.
1997.
A graça é uma participação na
vida de Deus, introduz-nos na intimidade da vida trinitária: pelo
Baptismo, o cristão participa na graça de Cristo, cabeça do seu corpo; como “filho
adoptivo”, pode doravante chamar “Pai” a Deus, em união como seu Filho
Unigénito; e recebe a vida do Espírito, que lhe infunde a caridade e forma a
Igreja.
1998. Esta
vocação para a vida eterna é sobrenatural. Depende
inteiramente da iniciativa gratuita de Deus, porque só Ele pode revelar -Se e
dar-Se a Si mesmo. E ultrapassa as capacidades da inteligência e as forças da
vontade humana, como de qualquer criatura.
1999. A
graça de Cristo é dom gratuito que Deus nos faz da sua vida, infundida pelo
Espírito Santo na nossa alma para a curar do pecado e a santificar. É a graça
santificante ou deificante, recebida no Batismo. É, em nós, a nascente
da obra de santificação:
“Por isso, se
alguém está em Cristo, é uma nova criação. O que era antigo passou: eis que
surgiram coisas novas! Tudo isto vem de Deus, que nos reconciliou consigo por
meio de Cristo” (2 Cor 5, 17-18).
2000. A
graça santificante é um dom habitual, uma disposição estável e sobrenatural,
que aperfeiçoa a alma, mesmo para a tornar capaz de viver com Deus e de agir
por seu amor. Devemos distinguir a graça habitual, disposição permanente
para viver e agir segundo o apelo divino, e as graças atuais, que
designam as intervenções divinas, quer na origem da conversão, quer no decurso
da obra de santificação.
2001. A preparação
do homem para acolher a graça é já obra da graça. Esta é necessária
para suscitar e sustentar a nossa colaboração na justificação pela fé e na
santificação pela caridade. Deus acaba em nós o que começou, “porque é Ele
próprio que começa fazendo com que queiramos e é Ele que acaba, cooperando com
aqueles que assim querem”:
“Sem dúvida, que nós também
trabalhamos, mas não fazemos mais do que cooperar com Deus que trabalha, porque
a sua misericórdia nos precedeu. Precedeu – nos para sermos curados e continua
a acompanhar-nos para que, uma vez curados, sejamos vivificados. Precede-nos
para que sejamos chamados, segue-nos para que sejamos glorificados, precede-nos
para que vivamos segundo a piedade, segue-nos para que vivamos para sempre com
Ele, porque sem Ele nada podemos fazer”.
2002. A
livre iniciativa de Deus reclama a resposta livre do homem, porque
Deus criou o homem à sua imagem, conferindo-lhe, com a liberdade, o poder de O
conhecer e de O amar. Só livremente é que a sua alma entra na comunhão do amor.
Deus toca imediatamente e move diretamente o coração do homem. Colocou no homem
uma aspiração à verdade e ao bem, que só Ele pode satisfazer. As promessas da “vida
eterna” correspondem a esta aspiração, para além de toda a esperança.
“Se Tu, após as
tuas obras muito boas, […] descansaste no sétimo dia, foi para nos dizer de
antemão, pela voz do Teu Livro, que no termo das nossas obras, que “são muito
boas” pelo simples fato de teres sido Tu quem nos deu, também nós repousaremos
em Ti, no Sábado da vida eterna”.
2003. A
graça é, antes de tudo e principalmente, o dom do Espírito que nos justifica e
nos santifica. Mas também compreende os dons que o Espírito nos dá, para nos
associar à sua obra, para nos tornar capazes de colaborar na salvação dos
outros e no crescimento do corpo Místico de Cristo, que é a Igreja. São as graças
sacramentais, dons próprios dos diferentes sacramentos. São, além disso, as
graças especiais, também chamadas “carismas”, segundo o termo
grego empregado por São Paulo e que significa favor, dom gratuito, benefício.
Qualquer que seja o seu carácter, por vezes extraordinário, como o dom dos
milagres ou das línguas, os carismas estão ordenados para a graça santificante
e têm por finalidade o bem comum da Igreja. Estão ao serviço da caridade que edifica
a Igreja.
2004. Entre
as graças especiais, devem mencionar-se as graças de estado, que
acompanham o exercício das responsabilidades da vida cristã e dos ministérios
no seio da Igreja:
“Possuímos dons
diferentes, conforme a graça que nos foi dada. Quem tem o dom da profecia,
comunique-o em harmonia com a fé: quem tem o dom do ministério, exerça as
funções do ministério: quem tem o dom do ensino, ensine: quem tem o dom de
exortar, exorte; quem tem a missão de repartir, faça-o com desinteresse; quem
preside, faça-o com zelo; quem exerce a misericórdia, faça -o com alegria” (Rm 12,
6-8).
2005. Sendo,
como é, de ordem sobrenatural, a graça escapa nossa experiência
e só pode ser conhecida pela fé. Não podemos, pois, basear-nos nossos
sentimentos nem nas nossas obras, para daí concluirmos que estamos justificados
e salvos. No entanto, segundo a palavra do Senhor, que diz: “Pelos seus frutos
os conhecereis” (Mt 7, 20), a consideração dos benefícios de
Deus na nossa vida e na vida dos santos oferece-nos uma garantia de que a graça
de Deus opera em nós e nos incita a uma fé cada vez maior e a uma atitude de
pobreza confiante:
Encontramos uma das
mais belas ilustrações desta atitude na resposta de Santa Joana d’Arc a uma pergunta
capciosa dos seus juízes eclesiásticos: “Interrogada sobre se sabe se está na
graça de Deus, responde; “Se não estou, Deus nela me ponha: se estou, Deus nela
me guarde””.
III.
O mérito
“Vós sois glorificado na assembleia
dos santos: quando coroais os seus méritos, coroais os vossos próprios dons”.
2006. A
palavra “mérito” designa, em geral, a retribuição devida por uma
comunidade ou sociedade à ação de um dos seus membros, experimentada como um
benefício ou um malefício, digna de recompensa ou de castigo. O mérito diz
respeito à virtude da justiça, em conformidade com o princípio da igualdade que
a rege.
2007. Em
relação a Deus, não há, da parte do homem, mérito no sentido dum direito
estrito. Entre Ele e nós, a desigualdade é sem medida, pois nós tudo recebemos
dele, nosso Criador.
2008. O
mérito do homem perante Deus, na vida cristã, provém do facto de que Deus
dispôs livremente associar o homem à obra da sua graça. A ação paterna
de Deus é primeira, pelo seu impulso, e o livre agir do homem é segundo, na sua
colaboração; de modo que os méritos das obras devem ser atribuídos à graça de
Deus, primeiro, e depois ao fiel. Aliás, o próprio mérito do homem depende de
Deus, porque as suas boas ações procedem, em Cristo, das predisposições e
ajudas do Espírito Santo.
2009. A
adopção filial, tornando-nos, pela graça, participantes da natureza divina,
pode conferir-nos, segundo a justiça gratuita de Deus, um verdadeiro mérito.
Trata-se de um direito derivante da graça, o direito pleno do amor que nos
faz “coerdeiros” de Cristo e dignos de obter a “herança prometida da vida
eterna”. Os méritos das nossas boas obras são dons da bondade divina. “A graça
precedeu; agora restitui-se o que é devido […] Os méritos são dons de Deus”.
2010. Uma
vez que, na ordem da graça, a iniciativa pertence a Deus, ninguém pode
merecer a graça primeira, que está na origem da conversão, do perdão e
da justificação. Sob a moção do Espírito Santo e da caridade, podemos,
depois, merecer para nós mesmos e para outros, as graças úteis para a
santificação e para o aumento da graça e da caridade, bem como para a obtenção
da vida eterna. Os próprios bens temporais, tais como a saúde e a amizade,
podem ser merecidos segundo a sabedoria de Deus. Estas graças e estes bens são
objeto da oração cristã. Esta provê à nossa necessidade da graça para as ações
meritórias.
2011.
A caridade de Cristo é, em
nós, a fonte de todos os nossos méritos diante de Deus. A
graça, unindo-nos a Cristo com um amor ativo, assegura a qualidade sobrenatural
dos nossos atos e, por consequência, o seu mérito, tanto diante de Deus como
diante dos homens. Os santos tiveram sempre uma consciência viva de que os seus
méritos eram pura graça.
“Depois do exílio da terra, espero ir
gozar de Vós na Pátria, mas não quero acumular méritos para o céu, quero é
trabalhar só por vosso amor […] Na noite desta vida,
aparecerei diante de Vós com as mãos vazias, pois não Vos peço, Senhor, que
conteis as minhas obras. Todas as nossas justiças têm manchas aos vossos olhos.
Quero, portanto, revestir-me com a vossa própria Justiça, e receber
do vosso Amor a posse eterna de Vós mesmo …”.
IV.
A santidade cristã
2012.
“Deus concorre em tudo para o bem
daqueles que O amam […]. Porque os que Ele de antemão conheceu, também os
predestinou para serem conformes à imagem do seu Filho, para que Ele seja o
Primogénito de muitos irmãos. E aqueles que predestinou, também os chamou; e
aqueles que chamou, também os justificou; e aqueles que justificou, também os
glorificou” (Rm 8, 28-30).
2013.
“Os cristãos, de qualquer estado ou
ordem, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade”. Todos
são chamados à santidade: “Sede perfeitos, como o vosso Pai Celeste é perfeito” (Mt 5,
48):
“Para alcançar esta
perfeição, empreguem os fiéis as forças recebidas segundo a medida em que
Cristo as dá, a fim de que […] obedecendo em tudo a vontade do Pai, se
consagrem com toda a alma à glória do Senhor e ao serviço do próximo. Assim
crescerá em frutos abundantes a santidade do povo de Deus, como patentemente se
manifesta na história da Igreja, com a vida de tantos santos”.
2014. O
progresso espiritual tende para a união cada vez mais íntima com Cristo. Esta
união chama-se “mística”, porque participa no mistério de Cristo pelos
sacramentos – “os santos mistérios” – e, n’Ele, no mistério da Santíssima
Trindade. Deus chama-nos todos a esta íntima união com Ele, mesmo que graças
especiais ou sinais extraordinários desta vida mística somente a alguns sejam
concedidos, para manifestar o dom gratuito feito a todos.
2015.
O caminho desta perfeição passa pela
cruz. Não há santidade sem renúncia e combate espiritual. O progresso
espiritual implica a ascese e a mortificação, que conduzem gradualmente a viver
na paz e na alegria das bem-aventuranças:
“Aquele que sobe,
nunca mais para de ir de princípio em princípio, por princípios que não têm fim.
Aquele que sobe nunca mais deixa de desejar aquilo que já conhece”.
2016. Os
filhos da santa Igreja, nossa Mãe, esperam justamente a graça da perseverança
final e a recompensa de Deus seu Pai pelas boas obras realizadas com a sua
graça, em comunhão com Jesus. Guardando a mesma regra de vida, os crentes
partilham a “bem-aventurada esperança” dos que a misericórdia divina reúne na “Cidade
santa, a nova Jerusalém, que desce do céu, como noiva adornada para o seu
Esposo” (Ap 21, 2).
Resumindo:
2017. A
graça do Espírito Santo confere-nos a justiça de Deus. Unindo-nos, pela
fé e pelo Batismo, à paixão e ressurreição de Cristo, o Espírito Santo faz-nos
participar da sua vida.
2018. A
justificação, tal como a conversão, apresenta duas faces. Sob a moção
da graça, o homem volta-se para Deus e desvia-se do pecado, recebendo assim o
perdão e a justiça do Alto.
2019. A
justificação compreende a remissão dos pecados, a santificação e a renovação
do homem interior.
2020. A
justificação foi-nos merecida pela paixão de Cristo. Foi -nos dada por
meio do Baptismo. Conforma-nos com a justiça de Deus, que nos faz justos. Tem
como fim a glória de Deus e de Cristo e o dom da vida eterna. É a obra mais
excelente da misericórdia de Deus.
2021.
A graça é o socorro que Deus nos dá
para correspondermos à nossa vocação de
nos tornarmos seus filhos adoptivos. Introduz-nos na intimidade da vida
trinitária.
2022. Na
obra da graça, a iniciativa divina previne, prepara e suscita a livre resposta
do homem. A graça corresponde às aspirações profundas da liberdade humana;
chama-a a cooperar consigo e aperfeiçoa-a.
2023. A
graça santificante é o dom gratuito que Deus nos faz da sua vida, infundida
pelo Espírito Santo na alma para a curar do pecado e a santificar.
2024. A
graça santificante torna-nos “agradáveis a Deus”. Os carismas, graças
especiais do Espírito Santo, estão ordenados à graça santificante e têm por
finalidade o bem comum da Igreja. Deus também a tua por meio de múltiplas
graças atuais, distintas da graça habitual, permanente em nós.
2025. Não
há para nós mérito diante de Deus, senão como consequência do Livre
desígnio divino de associar o homem à obra da sua graça. O mérito pertence, em
primeiro lugar, à graça de Deus; em segundo lugar, à cooperação do homem. O
mérito do homem reverte para Deus.
2026. A
graça do Espírito Santo, em virtude da nossa filiação adoptiva, pode conferir-nos
um verdadeiro mérito segundo a justiça gratuita de Deus. A caridade é, em nós,
a principal fonte de mérito perante Deus.
2027. Ninguém
pode merecer a graça primeira, que está na origem da conversão.
Sob a moção do Espírito Santo, podemos merecer; para nós mesmos e para outrem,
todas as graças úteis para chegar à vida eterna, bem como os bens temporais
necessários.
2028. “Todos
os cristãos […] são chamados à plenitude da vida cristã
e à perfeição da caridade”. “A perfeição cristã só tem um limite: o
de não ter nenhum”.
2029. “Se
alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me”
(Mt, 16, 24).
A
IGREJA, MÃ E EDUCADORA
2030. É
em Igreja, em comunhão com todos os batizados, que o cristão realiza a sua
vocação. Da Igreja recebe a Palavra de Deus, que contém os ensinamentos da “Lei
de Cristo”; da Igreja recebe a graça dos sacramentos que o sustentam no “caminho”:
da Igreja recebe o exemplo da santidade: reconhece-lhe
a figura e a fonte na santíssima Virgem Maria; distingue-a no testemunho
autêntico dos que a vivem: descobre-a na tradição espiritual e na longa
história dos santos que o precederam e que a liturgia celebra ao ritmo do
Santoral.
2031.
A vida moral é um culto espiritual. Nós
“oferecemos os nossos corpos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus”, no
seio do corpo de Cristo que formamos e em comunhão com a oferenda da sua
Eucaristia. Na liturgia e na celebração dos sacramentos, a oração e doutrina
conjugam -se com a graça de Cristo, para esclarecer e alimentar o agir cristão.
Como todo o conjunto da vida cristã, a vida moral tem a sua fonte e o seu ponto
alto no sacrifício eucarístico.
I.
Vida moral e Magistério da Igreja
2032. A
Igreja, “coluna e fundamento da verdade” (1 Tm 3, 15), “recebeu dos
Apóstolos o solene mandamento de Cristo de anunciar a verdade da salvação”. “À
Igreja compete anunciar sempre e em toda a parte os princípios morais, mesmo de
ordem social, bem como emitir juízo acerca de quaisquer realidades humanas, na
medida em que o exigirem os direitos fundamentais da pessoa humana ou a
salvação das almas”.
2033. O Magistério
dos pastores da Igreja, em matéria moral, exerce-se ordinariamente na
catequese e na pregação, com a ajuda das obras dos teólogos e autores
espirituais. Assim se transmitiu, de geração em geração, sob a égide e a
vigilância dos pastores, o “depósito” da moral cristã, formado por um conjunto
característico de regras, mandamentos e virtudes procedentes da fé em Cristo e
vivificados pela caridade. Esta catequese tomou por fundamento,
tradicionalmente, a par do Credo e do Pai Nosso, o Decálogo, que enuncia os
princípios da vida moral válidos para todos os homens.
2034. O
Romano Pontífice e os bispos, como “doutores autênticos, investidos na
autoridade de Cristo, pregam ao povo a eles confiado a fé que deve ser
acreditada e aplicada aos costumes”. O Magistério ordinário e
universal do Papa, e dos bispos em comunhão com ele, ensina aos fiéis a verdade
que se deve crer, a caridade que se deve praticar e a bem-aventurança que se
deve esperar.
2035. O
grau supremo na participação da autoridade de Cristo está garantido pelo
carisma da infalibilidade. Esta “é tão ampla quanto o depósito
da Revelação divina”; e estende -se também a todos os elementos de doutrina,
mesmo moral, sem os quais as verdades salvíficas da fé não podem ser guardadas,
expostas e observadas.
2036. A
autoridade do Magistério estende-se também aos preceitos específicos da lei
natural, porque a sua observância, exigida pelo Criador, é necessária
à salvação. Ao lembrar as prescrições da lei natural, o Magistério da Igreja
exerce uma parte essencial da sua função profética, de anunciar aos homens o
que eles são na verdade e de lhes lembrar o que devem ser perante Deus.
2037. A
Lei de Deus, confiada à Igreja, é ensinada aos fiéis como caminho de vida e de
verdade. Os fiéis têm, portanto, o direito de serem instruídos
sobre os preceitos divinos salvíficos que purificam o juízo e, com a graça,
curam a razão humana ferida. E têm o dever de observar as
constituições e decretos emanados da autoridade legítima da Igreja. Mesmo que
sejam disciplinares, tais determinações requerem docilidade na caridade.
2038. Na
tarefa do ensino e da aplicação da moral cristã, a Igreja precisa da dedicação
dos pastores, da ciência dos teólogos, do contributo de todos os cristãos e
homens de boa vontade. A fé e a prática do Evangelho conferem a cada qual uma
experiência da vida “em Cristo” que o ilumina e o torna capaz de avaliar as
realidades divinas e humanas, segundo o Espírito de Deus. Assim, o Espírito
Santo pode servir-Se dos mais humildes para iluminar os sábios e os mais
elevados em dignidade.
2039. Os
ministérios devem exercer-se num espírito de serviço fraterno e de dedicação à
Igreja, em nome do Senhor. Ao mesmo tempo, a consciência de cada um, no seu
juízo moral sobre os seus atos pessoais, deve evitar fechar-se numa
consideração individual. Ela deve se abrir à consideração dobem de todos, tal
como se exprime na lei moral, natural e revelada, e conseguinte, na lei da
Igreja e no ensino autorizado do Magistério sobre as questões morais. Não
convém opor a consciência pessoal e a razão à lei moral ou ao Magistério da
Igreja.
2040. Assim,
pode desenvolver-se entre os cristãos um verdadeiro espírito filial
em relação à Igreja. Esse espírito é a expansão normal da graça
baptismal, que nos gerou no seio da Igreja e nos tornou membros do corpo de
Cristo. Na sua solicitude maternal, a Igreja concede-nos a misericórdia de
Deus, que supera todos os nossos pecados e age especialmente através do
sacramento da Reconciliação. Como mãe solícita, administra-nos também, na sua
liturgia, diariamente, o alimento da Palavra e da Eucaristia do Senhor.
II.
Os mandamentos da Igreja
2041. Os
preceitos da Igreja inserem-se nesta linha duma vida moral ligada vida
litúrgica e nutrindo-se dela. O caráter obrigatório destas leis positivas,
promulgadas pelas autoridades pastorais, tem por fim garantir aos fiéis o
mínimo indispensável de espírito de oração e de esforço moral e de crescimento
no amor a Deus e ao próximo. Os preceitos mais gerais da Igreja são cinco:
2042. O
primeiro mandamento (“Ouvir missa inteira e abster-se de trabalhos servis
nos domingos e festas de guarda”) exige aos fiéis que santifiquem o dia em
que se comemora a ressurreição do Senhor, bem como as principais festas
litúrgicas em honra dos mistérios do Senhor, da Bem -aventurada Virgem Maria e
dos Santos, que a Igreja declara como sendo de preceito, sobretudo participando
na celebração eucarística em que a comunidade cristã se reúne e descansando de
trabalhos e ocupações que possam impedir a santificação desses dias.
O segundo mandamento (“Confessar-se
ao menos uma vez em cada ano”) assegura a preparação para a Eucaristia,
mediante a recepção do sacramento da Reconciliação que continua a obra de
conversão e perdão do Batismo.
O terceiro mandamento (“Comungar
ao menos pela Páscoa da Ressurreição”) garante um mínimo na recepção do
Corpo e Sangue do Senhor, em ligação com as festas pascais, origem e centro da
liturgia cristã.
2043. O
quarto mandamento (“Guardar abstinência e jejuar nos dias determinados pela
Igreja”) assegura os dias de ascese e de penitência que nos preparam para
as festas litúrgicas e contribuem para nos fazer adquirir domínio sobre os
nossos instintos e a liberdade do coração.
O quinto mandamento (“Ajudar a
Igreja em suas necessidades”) aponta ainda aos fiéis a obrigação de prover,
às necessidades materiais da Igreja , cada um conforme as próprias
possibilidades.
III.
Vida moral e testemunho missionário
2044. A
fidelidade dos batizados é condição primordial para o anúncio do Evangelho e
para a missão da Igreja no mundo. Para manifestar diante dos
homens a sua força de verdade e irradiação, a mensagem de salvação deve ser
autenticada pelo testemunho de vida dos cristãos. “O testemunho de vida cristã
e as obras realizadas com espírito sobrenatural são meios poderosos para atrair
os homens à fé e a Deus”.
2045. Porque
são membros do corpo cuja cabeça é Cristo, os cristãos contribuem, pela
constância das suas convicções e dos seus costumes, para a edificação
da Igreja. A Igreja cresce, aumenta e desenvolve-se pela santidade dos
seus fiéis, até ao “estado do homem perfeito, à medida da estatura de Cristo na
sua plenitude” (Ef 4, 13).
2046. Vivendo
segundo Cristo, os cristãos apressam a vinda do Reino de Deus, do
“Reino da justiça, da verdade e da paz”. Mas nem por isso descuram as suas
tarefas terrestres. Fiéis ao seu Mestre, cumprem-nas com retidão, paciência e
amor.
Resumindo:
2047. A
vida moral é um culto espiritual. O agir cristão encontra alimento na
liturgia e na celebração dos sacramentos.
2048. Os
preceitos da Igreja dizem respeito à vida moral e cristã, unida à liturgia
e nutrindo-se dela.
2049. O
magistério dos pastores da Igreja em matéria moral exerce -se ordinariamente
na catequese e na pregação, com base no Decálogo, que enuncia os princípios da vida
moral válidos para todo o homem.
2050. O
Romano Pontífice e os bispos, na qualidade de doutores autênticos, pregam
ao povo de Deus a fé que deve ser acreditada e aplicada nos costumes.
Compete-lhes também pronunciarem-se sobre as questões morais da área da lei
natural e da razão.
2051.
A infalibilidade do Magistério dos
pastores abrange todos os elementos de doutrina, mesmo
moral, sem os quais as verdades salvíficas da fé não podem ser guardadas,
expostas ou observadas.