A rigor, as redes sociais são neutras:
não fazem nem bem e nem mal. É o coração humano que as tira desta sua
neutralidade. “Não é a tecnologia que determina se a comunicação é autêntica ou
não, mas o coração do homem e a sua capacidade de fazer bom uso dos meios ao
seu dispor” (Papa Francisco).
Por Dom Pedro Brito Guimarães*
Todos nós
somos conscientes da importância das redes sociais. Com o advento destas
plataformas, tudo ficou mais fácil, mais rápido e mais eficaz. Por causa da
navegabilidade, da conectividade, da velocidade e da praticidade, as redes
socais caíram no gosto das pessoas e se popularizaram. Tanto assim que o Papa
Francisco chegou a dizer que “as redes socais são
‘dom de Deus’ se usadas sabiamente”. O problema é
saber usá-las com sapiência. E é exatamente o que, de fato, não está
acontecendo. Nas mãos de quem não sabe manuseá-las sabiamente, elas se
constituem um desastre e se transformam em uma arma perigosa que destrói, fere
e mata.
A rigor,
as redes sociais são neutras: não fazem nem bem e nem mal. É o coração humano
que as tira desta sua neutralidade. “Não é a tecnologia que determina se a
comunicação é autêntica ou não, mas o coração do homem e a sua capacidade de
fazer bom uso dos meios ao seu dispor” (Papa
Francisco). O que se lamenta é que a geração de nativos,
que domina, como ninguém, estas plataformas, as utilizam como armas de guerra
para disseminar agressividades, espalhar cizânias, calúnias e raivas, provocar
suspeitas e nivelar, por baixo, como se todos fossem iguais.
Infelizmente
muitos que se dizem “católicos” usam mais as redes sociais para
condenar, politizar, polarizar, desinformar e provocar a divisão entre as
pessoas e entre os grupos do que para dialogar, compartilhar e evangelizar.
Defendem um neoconservadorismo que chega a beirar cisma. Um abismo chama outro
abismo. A violência só gera violência. A guerra somente gera guerra. Usar o
nome de Deus para justificar posturas e composturas agressivas e ríspidas, é
não falar, em espírito e verdade, em seu nome. Usar o nome da Igreja para
disseminar discórdia, é prestar-lhe um desserviço.
Tenho
repetido, à exaustação: “toda vez que perdemos
de vista a grandeza do mistério da comunhão da Igreja para ficar preso à
mesquinhez de uma pessoa, à fragilidade de um determinado grupo, ao erro de um
determinado período histórico, perdemos a capacidade de contemplar o infinito
mistério de Deus agindo em nós. Deus é infinitamente maior do que nosso pecado.
Entender o mistério da comunhão da Igreja é não amesquinhá-la, não perder tempo
com fofocas e picuinhas que ameaçam fechar a comunidade em si mesma e isolar os
grupos” (padre Vitor Feller).
Tempo
complexo este nosso. Estaria Cristo dividido? Estaria a Igreja de Cristo
dividida? Quem nos separará do amor de Cristo? Gosto muito deste outro texto.
Não é da minha autoria. Nem sei quem o escreveu. Peço, pois, vênia e licença,
ao autor, para apropriar-me dele, como se meu fosse: “não tragam apenas a
palavra afiada, feita faca para o combate; tragam também a voz e, no canto, a
melodia do sonho e da esperança da unidade. Não tragam apenas olhos críticos
para desnudar a injustiça e a opressão que os outros comentem; tragam também um
olhar doce e terno, capaz de perdão, misericórdia e reconciliação. Não tragam
apenas mãos firmes e fortes, a fim de remover barreiras e obstáculos; tragam
também na ponta dos dedos sensíveis o bálsamo para as nossas feridas do corpo e
da alma. Não tragam apenas pés rijos e calejados para as estradas íngremes e
inóspitas; tragam também passos leves e pacientes, sintonizados com o ritmo dos
mais debilitados. Não tragam apenas a boa nova do evangelho como um tesouro de
preciosas pérolas; tragam também a arte, a graça e a magia de transmiti-la em
tempos complexos. Não tragam apenas um espírito de fé, que tudo vence, supera e
sublima; tragam também o coração aberto ao diálogo, à solidariedade, à paz e à
oração. Não tragam apenas a água viva da mensagem, junto com a certeza de que
Deus o envia; tragam também sedes, dúvidas e interrogações, pois, evangelizar é
um movimento de mão dupla. Não tragam apenas o ouvido atento e a resposta
pronta ao sofrimento e à alegria de tantos caminhos; tragam também o silêncio
respeitoso diante da dor, já que uma história nua é como um sacrário aberto”.
Portanto,
digamos não à violência nas redes sociais. Não compartilhemos notícias e nem
conteúdos ofensivos e depreciativos. Não participemos de grupos que tenha por
objetivos fofocar, caluniar e divulgar inverdades, como se verdades fossem.
Vamos todos contribuir para a superação da violência, inclusive nas redes
sociais. Esta é a nossa missão. Bela missão.
*Arcebispo
de Palmas (TO)
